Faz algumas décadas que a arquitetura dos estádios de futebol vem se modificando, pelo menos no Brasil. Existia, aqui, um modelo de estádio com o chamado fosso, conhecido popularmente como “coreia”. O torcedor permanecia o tempo inteiro em pé, com a visão ao nível da relva. Era frequentado por torcedores da base da pirâmide social.
Estou comentando isso e lembrando das belas imagens do celebrado “Canal 100”, de Carlos Niemeyer, com muitas câmeras colocadas em vários pontos do estádio, inclusive detalhando o lance em câmera lenta, mas também mostrando a galera da coreia. Um primor.
O cinejornal foi ao ar nos cinemas de todo o Brasil — era projetado sempre antes do filme principal — de 1957 até o ano 2000.
Os estádios acolhiam, assim, praticamente toda a pirâmide social do Brasil. Da coreia, com as classes assalariadas e/ou os desempregados, às cabines fechadas e exclusivas dos endinheirados, passando pela “geral” e pela “arquibancada” para as classes médias.
O futebol era democrático e socialmente tolerante com todos.
Hoje, o futebol está apropriado pelos endinheirados. Na Copa da Fifa 2026, os ingressos alcançam milhares de dólares.
Dentro dos estádios só se vê gente do topo da pirâmide social: dos jogadores milionários à plateia igualmente muito rica.
Estamos todos testemunhando a morte de um pacto social dentro do futebol brasileiro.
Vamos esmiuçar essa transformação, porque o que aconteceu com a “coreia” (o fosso) não foi um acaso, mas um projeto deliberado de higienização e filtragem social.
A chamada coreia não era um lugar. Era um termômetro e um caldeirão.
O velho estádio com fosso era a materialização da democracia desigual, mas inclusiva.
O torcedor de baixa renda ou desempregado — em pé, ao nível do gramado, separado por um fosso para não invadir o campo — estava fisicamente mais perto do jogo do que o torcedor das cabines. Ele via o suor e ouvia os xingamentos dos jogadores.
Acusticamente, a coreia era o motor do estádio.
Era dali que saíam os cânticos mais obscenos, as vaias mais estrondosas e as provocações mais criativas.
O pobre, em pé, apertado e suado, produzia a alma sonora do espetáculo, enquanto o rico, nas cabines climatizadas, consumia o jogo como quem assiste à TV.
O estádio era uma pirâmide social vertical, mas todos compartilhavam o mesmo ar, o mesmo gramado e o mesmo tempo de jogo.
A partir dos anos 2000, com a Lei Geral do Esporte e a exigência da Fifa por estádios all-seater (100% com cadeiras), o discurso foi alterado para “segurança e conforto”. Mas o que aconteceu, de fato, foi a eliminação da participação popular.
O fosso foi aterrado, as gerais foram extintas e os ingressos mais baratos passaram a ser atrás dos gols, mas ainda com cadeiras e preços incompatíveis com o salário mínimo.
A nova arquitetura das arenas multifuncionais privilegia camarotes, lounges VIP e cadeiras premium. O estádio deixou de ser um anfiteatro social para se tornar um shopping center de luxo. Quem não tem poder de compra é simplesmente excluído do espetáculo ao vivo. Ele pode assistir na TV, mas não pode mais estar ali.
A Copa de 2026 e a globalização do camarote
A Copa do Mundo sempre foi um evento caro, mas o que vemos em 2026 (com ingressos na casa dos milhares de dólares) é a cristalização do futebol como bem de luxo global.
Não se trata mais de torcedores locais apaixonados; trata-se de turistas globais, patrocinadores corporativos e influenciadores digitais. O estádio na Copa virou um palco de networking, não de celebração popular.
Os jogadores milionários e a plateia milionária se olham no espelho: ambos são produtos do mesmo sistema financeirizado, não produtivo, mas sempre especulativo.
O jogo circense agora se completa: o sacrifício (que antes era físico e emocional do povo) foi substituído pelo entretenimento estéril entre iguais economicamente.
Perdeu-se a imprevisibilidade social. No estádio antigo, o empresário da cabine ouvia o grito do operário na geral. Havia um choque de classes dentro do mesmo prédio, uma tensão viva que humanizava o espetáculo. O “Canal 100” registrava isso com minúcia sociológica.
Hoje, a arquibancada é uma bolha econômica homogênea. O rico aplaude educadamente ou vibra de forma contida; ele não canta aquelas músicas popularescas e irônicas que nasciam na coreia. A violência diminuiu? Talvez. Mas a paixão crua e visceral foi substituída pelo consumo passivo.
É verdade que, no Brasil, ainda sobrevivem alguns redutos. A geral do Maracanã, para citar apenas um caso, reabriu (mas com preço ainda alto), e as torcidas organizadas ocupam as pontas dos estádios, tentando resgatar a velha energia. Porém, a tendência global é irreversível: o estádio do futuro é um luxo experiencial para ricos, enquanto o pobre vira espectador digital, confinado ao sofá de casa ou ao boteco da esquina.
A arquitetura do estádio sempre foi um retrato da sociedade.
Se antes era um retrato mestiço e piramidal (com todos, mas em degraus), hoje é um retrato segregado, pasteurizado, elitizado.
O futebol deixou de ser a catedral do povo para se tornar a sala de estar dos anunciantes, bancos e fundos de investimento. A coreia não foi apenas demolida; foi expurgada para que o preço do ingresso subisse e a alma popular fosse silenciada.
O gol, agora, é festejado com champanhe, e não com o suor do abraço coletivo na multidão.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
