O governo chinês reagiu nesta terça-feira (21) a um novo movimento de pressão dos Estados Unidos contra Cuba e acusou Washington de agir como “ladrão que grita pega ladrão”. Pequim afirmou que as acusações contra Havana ignoram décadas de sanções econômicas impostas pelos próprios Estados Unidos.
A declaração foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, durante uma coletiva de imprensa em Pequim. Ele reafirmou o apoio do país à soberania cubana e ao direito da ilha de estabelecer suas próprias relações internacionais.
A manifestação ocorreu após um relatório divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA sobre Cuba, documento que amplia as críticas de Washington ao governo cubano e questiona a relação da ilha com países como China, Rússia e Irã.
“A relação da China com Cuba é aberta e transparente e não admite calúnias ou difamações. Pedimos ao lado estadunidense que pare de difamar repetidamente outros países e pare com essas manobras de ‘ladrão que grita pega ladrão'”, afirmou o porta-voz.
Lin também reforçou a continuidade do apoio a Havana. “A China continuará apoiando firmemente Cuba na salvaguarda de sua soberania nacional e na oposição à interferência externa”, disse.
A expressão utilizada pelo representante da diplomacia chinesa corresponde ao provérbio “zéi hǎn zhuō zéi” (贼喊捉贼), equivalente ao ditado brasileiro “ladrão que grita pega ladrão”. O termo é usado para criticar aqueles que acusam outros de práticas que, segundo essa interpretação, também realizam.
O relatório de Washington
O relatório do Departamento de Estado coloca Cuba novamente no centro da política de pressão de Washington contra governos considerados adversários.
O documento apresenta Havana como um ator de influência política e estratégica no continente americano e afirma que o governo cubano mantém relações estreitas com países que Washington considera rivais geopolíticos.
Entre os principais pontos do relatório está a acusação de que Cuba teria desenvolvido estruturas de inteligência e influência contra os Estados Unidos. O documento também menciona a presença chinesa na ilha e afirma que Pequim teria ampliado sua cooperação em áreas consideradas sensíveis por Washington.
As acusações fazem parte de uma narrativa do governo estadunidense, segundo a qual Cuba, China, Rússia e Irã atuam de forma coordenada para ampliar sua influência no hemisfério ocidental.
Pequim rejeitou essas interpretações e afirmou que sua relação com Havana é baseada em cooperação econômica, intercâmbio tecnológico e respeito à soberania dos países.
Para o governo chinês, as acusações contra Cuba e contra a parceria bilateral representam uma tentativa de interferência nas escolhas internacionais de um país soberano.
Já para Havana e seus aliados, as acusações de Washington não podem ser separadas do embargo econômico, comercial e financeiro mantido pelos Estados Unidos há mais de seis décadas. O governo cubano afirma que a política estadunidense limita o acesso a recursos, investimentos e tecnologias.
Mais de seis décadas de bloqueio
Entre Cuba e Estados Unidos, ocorre um dos mais longos conflitos diplomáticos da história recente.
O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto por Washington contra Havana permanece em vigor há mais de seis décadas e é apontado pelo governo cubano como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do país.
As medidas restringem o acesso de Cuba a mercados, investimentos, crédito internacional e determinados produtos, incluindo equipamentos e tecnologias que dependem de componentes estadunidenses.
O governo dos EUA afirma que as sanções são uma forma de pressionar mudanças políticas em Havana. Já Cuba denuncia a política como uma tentativa de estrangulamento econômico e uma violação de sua soberania.
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprova regularmente resoluções pedindo o fim do embargo. A China está entre os países que defendem o levantamento das medidas coercitivas contra a ilha.
Uma parceria histórica entre China e Cuba
A aproximação entre Pequim e Havana possui raízes históricas. Os dois países estabeleceram relações diplomáticas em 1960, tornando Cuba o primeiro país da América Latina e do Caribe a reconhecer oficialmente a República Popular da China.
Desde então, a cooperação bilateral avançou em áreas estratégicas como saúde, agricultura, energia, infraestrutura, telecomunicações e biotecnologia. A parceria ganhou importância especial nos últimos anos, quando Cuba passou a enfrentar maiores dificuldades econômicas agravadas pelas sanções estadunidenses e por impactos externos, como a pandemia de Covid-19.
Em 2018, Cuba aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota, principal programa internacional de cooperação promovido pela China, ampliando projetos conjuntos em diferentes setores econômicos. Nos últimos anos, Pequim também aumentou a cooperação com Havana em meio à crise econômica enfrentada pela ilha, marcada por dificuldades no abastecimento energético, acesso a financiamento e importação de bens essenciais.
A China apresenta essa relação como uma parceria baseada em benefícios mútuos e cooperação entre países em desenvolvimento.
A nova troca de acusações também revela uma disputa mais ampla pela influência política e econômica na América Latina e no Caribe.
Durante décadas, os Estados Unidos trataram a região como uma área estratégica de sua política externa. Nos últimos anos, porém, a China ampliou sua presença por meio do comércio, investimentos e projetos de infraestrutura.
Pequim tornou-se um dos principais parceiros comerciais de diversos países latino-americanos e caribenhos, fortalecendo sua presença em setores como energia, transporte, mineração e tecnologia.
A disputa em torno de Cuba revela uma dimensão mais ampla da rivalidade estratégica entre China e Estados Unidos, que ultrapassa a ilha caribenha e envolve diferentes visões sobre soberania, desenvolvimento e influência internacional. Para Washington, o crescimento da influência chinesa na região representa um desafio estratégico. Para Pequim, trata-se de uma cooperação baseada no desenvolvimento e no respeito às escolhas de cada país.
No caso cubano, essa diferença de visões fica evidente: enquanto os Estados Unidos mantêm uma política de sanções e pressão, a China defende maior integração econômica e o fim das medidas que considera coercitivas.
A declaração de Lin Jian reforça uma posição recorrente da diplomacia chinesa: a defesa da soberania nacional e da não interferência nos assuntos internos de outros países.
Ao acusar Washington de agir como “ladrão que grita pega ladrão”, Pequim afirma que os Estados Unidos atribuem a outros países práticas que fazem parte de sua própria política externa, marcada, segundo o governo chinês, por sanções e pressões unilaterais.
