Transporte em SP

Cinco horas de viagem e falta de informação: passageiros relatam transtorno após incêndio em linha de trem privatizada por Tarcísio

Sem funcionários nas estações, viajantes passaram longas horas a espera de informações

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Trem administrado pela Trivia Trens pegou fogo no início da operação nesta quinta-feira (23)
Trem administrado pela Trivia Trens pegou fogo no início da operação nesta quinta-feira (23) | Crédito: Reprodução/X/@raffaelitoss

Moradores de pelo menos seis cidades da Região Metropolitana de São Paulo foram impactados pelo caos causado pela Trivia Trens, empresa terceirizada que passou a operar as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade na última terça-feira (21) e, dois dias depois, protagonizou um dos maiores transtornos da história do transporte público paulista.

Um incêndio em uma composição da 12-Safira, que vai do Brás, na região central de São Paulo, até Itaquaquecetuba, afetou o funcionamento dos trens. Todas as operações administradas pela Trivia Trens ficaram paralisadas em algum momento e depois funcionaram apenas parcialmente nas primeiras horas da manhã. A linha em que ocorreu o incidente foi a última a retomar a operação normal.

A agente de limpeza Maria Lúcia, 60 anos, moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, disse que nunca levou tanto tempo na volta do trabalho. Nesta quinta-feira (23), ela gastou mais de cinco horas para chegar em casa após sair às 8h do serviço em Tucuruvi, zona norte paulistana.

“Ainda nem dormi, estou pernoitada. Trabalho à noite, vou para casa e já vou precisar voltar para trabalhar, e não sei como vou fazer, porque não tem trem”, disse Maria Lúcia. Normalmente, ela pegaria a Linha 12-Safira na estação Brás. Devido ao caos, precisou esperar muito tempo na estação e pegar a Linha 11-Coral, quando essa linha retornou à operação, para então chegar à Linha 12-Safira, que só estava saindo da estação Tatuapé.

A concessão das três linhas para a iniciativa privada foi concluída nesta semana. Com o fim do processo, apenas a Linha 10-Turquesa permaneceria com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Diante do caos, a agência reguladora, no entanto, solicitou que a empresa pública retome o controle da operações cedidas à Trivia Trens.

Escassez de informações

Para além da falta do transporte, os passageiros também reclamam da falta de orientação por parte da concessionária Trivia Trens. Sem canais de comunicação eficientes nas estações e diante da insuficiência de funcionários nas plataformas, muitos usuários sequer sabiam o que fazer.

O chefe de cozinha Reginaldo Manuel de Santana, de 49 anos, morador de Guarulhos, descreveu o abandono da empresa enquanto esperava na plataforma sem saber se teria trem: “Estou aqui esperando já faz tempo. Ninguém fala nada, ninguém informa, ninguém anuncia nada. Só sei que está parado, mas que horas vai voltar e o que fazer enquanto isso, não sei”, disse.

A mesma queixa sobre a falta de atendimento foi compartilhada pela diarista Eliane Viana, de 46 anos, que precisava levar a filha para fazer terapia no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, e encontrou o acesso à linha 12-Safira na estação Brás bloqueado e sem explicações.

“Não tem nenhuma informação, nada. Achei estranho porque as escadas rolantes estão só subindo e a outra que dá para descer andando está fechada com o portãozinho. Eu desci e fiquei olhando e perguntando, mas não tem nenhum funcionário para informar”, disse Eliane, que já previa o prejuízo do atraso: “Vou ter que pegar um ônibus, mas vou chegar atrasada. Para mim vai ser bem ruim.”

Mesmo quem tentou se informar antes de sair de casa deparou-se com a escassez de detalhes ao chegar às plataformas de embarque. A auxiliar de limpeza Ângela Manzane, que viajou de Praia Grande, no litoral paulista, em direção ao Itaim Paulista, para visitar o filho internado em um hospital, relatou que a desinformação tornou a viagem um pesadelo.

“De madrugada, vi na televisão que tinha pegado fogo em um dos vagões, só que não tinha mais informação. Chegando aqui, também não estão informando nada. Não sei o que vou fazer agora”, disse Manzane.

Pânico nos trilhos

O incêndio, que gerou pânico logo cedo, interrompeu o fornecimento de energia entre as estações Brás e Sebastião Gualberto, forçando o acionamento do Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese) de forma tardia e improvisada para atender o trecho entre Bresser-Mooca e a estação USP Leste. Com a circulação suspensa, muitos passageiros viveram situações extremas.

O metalúrgico Antônio César, de 56 anos, morador de Guarulhos que trabalha no Butantã, zona oeste paulistana, relatou ter ficado preso no caos desde as 5h da manhã, não conseguiu chegar ao serviço e ainda precisou andar sobre os trilhos do trem para sair do local.

“Tive que descer na linha do trem e vir andando por aqui e até agora estou sem conseguir voltar para casa”, disse por volta das 11h, relatando cansaço após ter saído de casa às 4h da manhã para ir trabalhar. Ele também criticou a mudança repentina de gestão das linhas: “Desde quando a gente viu essas fardas desses caras [funcionários da Trivia Trens, antes da CPTM] diferentes que a gente já sentiu mudança. E, depois que mudou, agora é só passagem cara, e a gente não é bem servido”.

A falta de organização no transporte de emergência gerou críticas severas dos usuários, que se viram obrigados a disputar ônibus superlotados nas ruas. O operador de empilhadeira Mário Sérgio Teixeira, que estava a caminho de uma entrevista de emprego no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo, destacou a falta de suporte da nova operadora das linhas.

“Foi uma coisa errada, porque normalmente, quando acontece esse tipo de caos, eles contratam ônibus [Paese] e fica tudo na estação para quem vai seguir seu destino. Hoje não aconteceu isso. Todo mundo teve que desembarcar no meio da linha, se virar nos 30 para conseguir chegar ao trabalho”, disse Teixeira, que precisou caminhar até outras avenidas para fugir de pontos de ônibus completamente lotados.

A operadora de caixa Taísa Silva, de 29 anos, que saiu de casa para realizar um exame médico periódico, também expressou sua frustração com a lentidão generalizada que encontrou a caminho de São Miguel Paulista: “Hoje está muito lento, está muito difícil desde cedo. Tem piorado muito a cada dia.”

Já a dona de casa Maria Jacinta, que tentava fazer a baldeação do Brás em direção ao Aeroporto de Guarulhos e foi avisada de que os trens não completavam o percurso, resumiu a sensação de impotência de milhares de passageiros: “Não se sabe [o que vai acontecer]. Estamos aqui na expectativa de esperar.”

Retorno da CPTM

Diante do colapso no terceiro dia de operação definitiva sob controle da iniciativa privada, a Agência Reguladora de Serviços Públicos de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) decidiu intervir de forma imediata. Em uma medida prevista em contrato, a Artesp determinou o retorno da estatal CPTM para assumir temporariamente a operação das linhas 11, 12 e 13 por um período inicial de até 90 dias.

O diretor-presidente da Artesp, André Isper, classificou as falhas operacionais e o atendimento da concessionária como intoleráveis: “O que nós vimos nos últimos dois dias, especialmente hoje, é inaceitável. Como fiscalizadores e reguladores do contrato, estamos agindo de modo imediato. A ideia é a volta da CPTM para a operação, porque o que nós vimos realmente é muito ruim, muito penoso para o cidadão”, afirmou em nota.

Também por meio de nota, a CPTM disse estar “plenamente preparada, com todas as condições técnicas e operacionais necessárias, para reassumir temporariamente a operação das linhas” pelo tempo determinado pela agência reguladora.

Enquanto isso, a Artesp afirmou que irá instaurar um procedimento de apuração para identificar as causas do incêndio e investigar a responsabilidade da Trivia Trens, o que poderá resultar em sanções e multas que variam de R$ 40 mil a R$ 4 milhões.

Por sua vez, a Trivia Trens publicou em seu site notas dizendo que suas equipes técnicas atuaram para restabelecer a circulação e realizar o desembarque assistido dos passageiros por razões de segurança.

Até o fechamento desta reportagem, no entanto, a concessionária Trivia Trens não enviou resposta aos questionamentos feitos pelo Brasil de Fato para esclarecer os detalhes operacionais e as medidas de contingência adotadas durante o dia de caos. O espaço segue aberto para possíveis manifestações.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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