Por trás das estatísticas de feminicídio estão vidas interrompidas, famílias desamparadas, mulheres sobreviventes e casos que sequer chegam aos registros oficiais. É para evidenciar essas histórias e questionar a forma como a violência de gênero é contabilizada que o Observatório de Feminicídios Lupa Feminista lançou, nesta terça-feira (25), o dossiê “Há vida por trás dos dados”, resultado de quatro anos de monitoramento no Rio Grande do Sul.
O lançamento ocorreu com condução da psicóloga Cris Bruel, uma das coordenadoras do Coletivo Feminino Plural, e contou com apresentação artística de Gabi Nogueira e Deborah Finocchiaro e participação de diversos movimentos sociais.
Quarto dossiê publicado desde a criação da Lupa Feminista, em 2021, a publicação resgata o trabalho desenvolvido pelo observatório entre 2021 e 2025 e sistematiza uma metodologia voltada a dar visibilidade às histórias e às vidas que existem por trás das estatísticas de feminicídio.
Dividido em seis capítulos, o dossiê tem prefácio de Lili de Grammont e apresentação de Fabiane Lara dos Santos. “Esse dossiê traz um pouco do que foi essa vivência desses quatro anos, desse monitoramento com o aumento constante dos feminicídios. É o relato inclusive que não tem casos de explosões. Ele vem em uma constante, alarmante e desproporcional da morte de mulheres”, explica Santos.
Para ela, os números não podem ser dissociados das histórias das mulheres assassinadas. “Atrás desses números existe toda uma vivência que, por muitas vezes, acaba esquecida, atrás de uma invisibilidade, e isso quando chega a ser notícia, quando não é descartado ou não são visibilizados os casos.”
Santos destaca que o trabalho da Lupa Feminista busca deslocar a análise dos dados oficiais para uma perspectiva centrada na realidade das mulheres, muitas vezes invisibilizada nesse processo. “Acho que a Lupa traz essa reflexão. O dossiê demonstra, nesses quatro anos, o compromisso de não querer tirar os dados da organização da segurança, mas trazer a perspectiva da realidade das mulheres que é invisibilizada dentro desse processo e, por consequência, esse sentimento de tristeza e de dor que fica o tempo todo.”

Subnotificação também é resultado da forma como os casos são classificados
Santos chama atenção para a subnotificação dos feminicídios. Segundo ela, parte do problema está na forma como os assassinatos de mulheres são classificados. “Essas subnotificações partem justamente por esse descarte dessa morte por gênero, porque o feminicídio é a morte pela condição da mulher. Então, se não estiver enquadrado dentro do ‘ex-marido matou a mulher’, as outras questões da condição de gênero acabam ficando de lado.”
Para ela, o acesso aos dados produzidos pelo observatório permite que organizações, ativistas e mulheres tenham outra perspectiva sobre o crime. “A importância é sobre isso, é a gente poder fazer com que as organizações, as ativistas, as mulheres possam ter acesso a essas informações e ter uma perspectiva diferente sobre o feminicídio e de como esse crime é evitável e como ele é previsível também. E eu acho que, fazendo uma boa leitura e analisando tudo o que a gente vem trazendo ali, vai ter um olhar mais refinado para o que os números se apresentam.”
Quatro anos de monitoramento
A psicóloga Thais Pereira Siqueira, coordenadora do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, explica que o dossiê marca o fechamento de um ciclo de quatro anos de acompanhamento dos casos no estado.
Conforme Siqueira, a publicação também acompanha mudanças na própria etapa de atuação do observatório. “A gente fez um dossiê que resgata o nosso trabalho ao longo desses quatro anos, daquilo que a gente vem percebendo com o monitoramento dos feminicídios.”
Entre os temas abordados estão a violência doméstica e os feminicídios íntimos, os órfãos do feminicídio e, especialmente, as mulheres que sobrevivem às tentativas de feminicídio.
A coordenadora também destaca a subnotificação como um dos problemas identificados pelo monitoramento. “Para além dos feminicídios íntimos, muitos casos de assassinato de mulheres têm indícios de violência de gênero, mas não são levados em consideração. Então, é por isso também que a gente fala em subnotificação.”
Na avaliação de Siqueira, a violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul permanece em níveis elevados. “Ela é intensa, permanente e estável em níveis muito elevados.” Para ela, ainda é necessário avançar na implementação da Lei Maria da Penha. “Ainda estamos caminhando para de fato implementar a Lei Maria da Penha. Está lá no papel, mas as mulheres não conseguem de fato usufruir o tanto que precisam da lei. Um avanço agora, que o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu essa semana, de que a Lei Maria da Penha vai ser aplicada em outros contextos que somente o doméstico e o familiar, abarcando outras situações.”
Siqueira também avalia que os 20 anos da legislação, completados neste ano, são motivo de comemoração, mas não encerram a necessidade de avanços, principalmente no que diz respeito à prevenção.
.
Sobre o dossiê, a psicóloga afirma que a publicação representa uma sistematização de um trabalho que já vinha sendo desenvolvido pelo observatório. “O dossiê está no nosso coração. É um material mais sistematizado que traz um resgate, não tem nada nele do que a gente já não tenha falado em entrevistas, em simpósios, seminários, em debates, na contribuição que demos ao relatório elaborado pela Comissão Externa dos Feminicídios no RS, mas foi a oportunidade de mostrarmos de fato o nosso trabalho.”
‘O olhar que tem nesses monitoramentos são vidas, não são números’
A coordenadora do Coletivo Feminino Plural, Mariza Iracet, ressaltou que a publicação evidencia também os impactos dos feminicídios sobre as famílias e sobre a sociedade. O coletivo completa, neste ano, 30 anos de atuação no combate à violência contra meninas e mulheres e à violação de direitos. “Hoje o lançamento do dossiê do Observatório Lupa Feminista tem grande importância devido ao número de mulheres que são mortas e nós, como uma questão de política pública, cobramos do Estado providências.”
Para Iracet, os dados precisam ser compreendidos a partir das consequências concretas da violência. “O olhar que tem nesses monitoramentos são vidas, não são números. São famílias, são filhos que ficam à mercê de todas as vulnerabilidades devido à perda da mãe, violência psicológica.”
Ela também defendeu a ampliação das políticas de proteção e atendimento às famílias atingidas. “Os feminicídios merecem muito mais além de um salário mínimo e também um atendimento psicológico.”
Iracet destacou ainda que o impacto da morte de uma mulher ultrapassa o núcleo familiar. “Quando uma mulher é morta, a família inteira sofre, e a sociedade também sofre. Porque essa mulher que foi morta, ela é mãe, ela é irmã, ela é filha, ela é cuidadora. Nós mulheres somos muitas, e quando uma mulher morre, é morta, porque a gente não pode dizer que ela morreu, ela foi morta, é um prejuízo imenso para a sociedade.”
Dados são fundamentais para formular políticas públicas
A jornalista Télia Negrão, articuladora territorial do Ministério das Mulheres no Rio Grande do Sul, destacou a importância da produção e da qualificação dos dados para o enfrentamento à violência. “A produção de dados hoje para o enfrentamento à violência e ao feminicídio é um elemento indispensável das políticas públicas, porque não é possível elaborar políticas públicas sem que esteja ancorada em dados fidedignos que tenham uma análise profunda por trás.”
Segundo Negrão, o Ministério das Mulheres está lançando uma área chamada Subsecretaria de Avaliação, Monitoramento e Gestão da Informação (Sagi Mulher), voltada à coleta e sistematização de dados sobre as mulheres brasileiras. “Uma das grandes lacunas que nós temos hoje ainda é a existência de diferentes padrões de busca do dado de violência. Cada um com uma fonte diferente, ou segurança pública, ou saúde, e não se fica com o dado preciso.”
Para ela, é necessário aprimorar os registros dentro dos próprios serviços e garantir a aplicação adequada da legislação e dos protocolos. “É preciso que haja um aprimoramento dentro dos próprios serviços, com a correta aplicação da Lei Maria da Penha, da Lei do Feminicídio, de todos os protocolos. E depois, de metodologia que possam dialogar entre si.”
Negrão pontua que a metodologia desenvolvida pela Lupa Feminista contribui para evidenciar casos que podem não aparecer nas estatísticas oficiais. “A Lupa Feminista vem nessa perspectiva de contribuir para a existência de dados que, inclusive, ao longo dos seus quatro anos, o observatório tem dados discrepantes dos dados oficiais, porque ele vem aplicando uma metodologia de perspectiva de gênero à risca, o que inclui muitos feminicídios, muitos assassinatos que ficam na vala dos crimes comuns e não entram nas estatísticas.”
De acordo com ela, um número maior de registros não significa necessariamente um aumento da violência, mas pode indicar que mais casos estão sendo identificados e denunciados. “Quanto mais registro de violência a gente tem, significa que a violência está sendo denunciada pelas mulheres. Ela está se aproximando cada vez mais da realidade.”
Sobre os registros de feminicídio, Negrão defende que a aplicação adequada da legislação e dos protocolos é fundamental para qualificar os dados. “Quanto mais nós utilizarmos a legislação de forma adequada e os protocolos e as diretrizes, considerando a perspectiva de gênero cruzada com outras interseccionalidades, nós vamos ter o dado mais fidedigno de feminicídio e vamos ter condições de melhor enfrentar esse problema.”

Sobreviventes também entram no debate
A necessidade de olhar para as mulheres que sobrevivem às tentativas de feminicídio foi destacada por Carol Santos, do Movimento Feminista Inclusivas. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, ela participa da construção do dossiê e atua desde 2022 na ampliação do debate sobre o tema.
“Eu, enquanto sobrevivente, participando também da construção do dossiê, mas trazendo um tema tão importante para o nosso país, porque não falo só do nosso estado, mas falo das mais de 4 mil mulheres, quase 5 mil sobreviventes de tentativas de homicídio no nosso país, no qual eu também sou uma sobrevivente.”
Santos ressalta que a discussão sobre a violência contra as mulheres costuma se concentrar nas vítimas fatais, deixando em segundo plano aquelas que sobrevivem. “Nós lutamos incansavelmente pelas mulheres que morrem, mas a gente muitas vezes esquece daquelas que sobrevivem. E quando a gente fala daquelas que sobrevivem, muitas vezes a gente nem sabe quem são essas mulheres, quem são esses corpos, quem são essas vozes e como que essas mulheres seguem.”
A partir da própria experiência, Santos passou a atuar na defesa dos direitos das mulheres com deficiência. “Eu, enquanto sobrevivente, que acabei me tornando uma mulher com deficiência e hoje sou uma militante na luta dos direitos das mulheres com deficiência, porque é desse lugar que eu transito na sociedade.”
Ela chama atenção para as barreiras enfrentadas por essas mulheres. “Eu vejo o quanto a estrutura capacitista é capaz de silenciar, invisibilizar e principalmente causar tantas barreiras, tantas barreiras sociais que nos atravessam, que nos impedem de muitas coisas.”
Para Santos, é necessário reconhecer que a violência não termina com a sobrevivência ao ataque.
“Falar para a sociedade que além do feminicídio há os corpos que sobrevivem, que são marcados por danos físicos, psicológicos, traumas, mulheres que muitas vezes não conseguem sequer recomeçar uma vida com dignidade.”
A militante também citou a construção do Projeto de Lei 1042, que propõe uma política nacional de atenção integral às mulheres que sobrevivem à tentativa de homicídio e seus filhos e filhas. “Hoje nós estamos em uma nova etapa e construção de política pública, que é a PL 1042, que é uma política nacional de atenção integral às mulheres que sobrevivem à tentativa de homicídio e seus filhos e suas filhas.”
Ela defende que as sobreviventes tenham condições para reconstruir suas vidas. “Eu tenho lutado incansavelmente, ao lado das companheiras, para dizer que as sobreviventes precisam ter direito de continuar, mas continuar e recomeçar com dignidade.”
A professora Cibele Cheron, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (Niem) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou a importância de olhar para além das estatísticas de feminicídio.
Ela lembrou uma ação realizada durante a final do Campeonato Gaúcho deste ano, quando foi projetado no painel do estádio Beira-Rio o placar “Feminicídios 20 versus zero sociedade”, como parte de uma campanha de enfrentamento à violência contra as mulheres.
Para Cheron, o trabalho da Lupa Feminista contribui justamente para revelar o que os números não mostram. “E isso é o que a Lupa trabalha, mostra e nos oferece: o que está por trás dos nomes. Há muito mais do que só os nomes das mulheres que perderam a vida de maneira desnecessária, evitável e brutal.”
A professora também ressaltou a dimensão política do enfrentamento à violência de gênero. “Feminicídio é um crime de Estado. E é contra isso, contra este crime de Estado que a gente trabalha.”
