DIÁLOGOS IJF

IPTU pode ampliar justiça fiscal e contribuir para redução das desigualdades, defende pesquisadora

Especialista Claudia M. De Cesare destacou potencial pouco explorado do imposto predial e territorial no Brasil

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Diálogos IJF discutiu o papel do IPTU na promoção da justiça fiscal, na redução das desigualdades e no desenvolvimento das cidades
Diálogos IJF discutiu o papel do IPTU na promoção da justiça fiscal, na redução das desigualdades e no desenvolvimento das cidades | Crédito: Reprodução da live

O Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) pode assumir um papel mais relevante na promoção da justiça fiscal, no financiamento das cidades e na redução das desigualdades. A avaliação foi apresentada pela professora e pesquisadora Claudia M. De Cesare, especialista em tributação e avaliação imobiliária, durante a edição do Diálogos IJF, realizada nesta terça-feira (25), pelo Instituto Justiça Fiscal (IJF). O encontro foi mediado por Claudio Graziano Fonseca, secretário-executivo do Instituto.

Com o tema “IPTU: Equidade & Justiça Fiscal”, De Cesare destacou que, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, o imposto ainda é subutilizado no país e apresenta grandes diferenças de desempenho entre os municípios.

Um dos dados apresentados durante o debate evidencia essa desigualdade: em 2022, 6% dos municípios brasileiros não arrecadaram IPTU. A receita média foi de R$ 310 por habitante, mas, em metade dos municípios, ficou abaixo de R$ 34 por habitante. Em relação ao PIB municipal, a arrecadação média correspondeu a 0,27%, enquanto apenas 250 municípios – 4,5% do total – superaram 1%. Dessa forma, a arrecadação está concentrada em poucos municípios e representa pouco para a maioria, principalmente para os menores.

Debate do IJF destaca o potencial do IPTU como instrumento de justiça fiscal e redução das desigualdades entre municípios | Crédito: Agência Fapesp

A especialista destacou ainda que existe grande potencial para ampliar a participação do IPTU sem simplesmente aumentar a carga sobre todos os contribuintes. Estudos apresentados durante o debate indicam que a arrecadação brasileira poderia crescer significativamente com aperfeiçoamentos na administração e no desenho do imposto. Diferentes trabalhos projetam receitas entre 0,9% e 1,25% do PIB, dependendo do cenário considerado.

Patrimônio e desigualdade

Outro aspecto importante do debate foi a relação entre tributação do patrimônio e desigualdade. De Cesare destacou que a concentração patrimonial é ainda mais acentuada do que a concentração da renda, ressaltando a importância de políticas tributárias progressivas. A tributação imobiliária, nesse contexto, pode ajudar não apenas a arrecadar recursos, mas também a tornar mais equilibrada a distribuição dos custos e dos benefícios produzidos pelo desenvolvimento urbano.

Entre os benefícios do fortalecimento do IPTU destacados na apresentação estão a maior estabilidade das receitas municipais, o aumento da autonomia dos governos locais, a progressividade tributária e a eficiência econômica. A medida também pode contribuir para reduzir a especulação imobiliária e permitir que parte da valorização dos imóveis decorrente de investimentos públicos seja revertida em benefício da sociedade.

Debate destacou o papel do IPTU na redução das desigualdades e no combate à especulação imobiliária | Crédito: PMPA

Um dos principais obstáculos está na capacidade administrativa dos municípios. Dados do IBGE mostram que, dos 5.570 municípios brasileiros, cerca de 20% não possuem sistema de cadastro de imóveis. Outros 50% contam com cadastro, mas sem dados georreferenciados, enquanto apenas aproximadamente 20% dispõem desse tipo de informação.

Para De Cesare, fortalecer a tributação imobiliária demanda o aperfeiçoamento dos cadastros, a atualização periódica das avaliações dos imóveis e a aplicação de estratégias eficientes de arrecadação e cobrança. A melhoria das práticas administrativas resulta da incorporação de novas tecnologias nos processos de atualização cadastral; da implementação e manutenção dos observatórios do mercado imobiliário; da integração entre bases de dados; do apoio da geoestatística nas avaliações dos imóveis ou mesmo de técnicas de aprendizado de máquina; e do uso de sistemas integrados de administração tributária.

A especialista também salientou a atenção para aspectos mais favoráveis do sistema brasileiro, como a autonomia dos municípios na determinação de alíquotas, isenções e demais regras de lançamento e cobrança do IPTU. Salientou, em especial, a possibilidade de utilização de alíquotas progressivas e ainda de aplicar alíquotas mais elevadas aos terrenos sem construção, ilustrando o papel extrafiscal deste instrumento de promover o desenvolvimento urbano e combater a especulação imobiliária.

Reduzir influências políticas populistas

O mediador registrou sua experiência na prefeitura de Jacareí, ressaltando os efeitos da influência política de ocasião nos critérios de avaliação de imóveis, o que pode prejudicar gestões responsáveis.

Para evitar a subutilização do IPTU, De Cesare alerta que alguns obstáculos precisam ser superados e que, infelizmente, a recente reforma tributária aprovada não repercutiu positivamente para ampliar a cidadania por meio deste tributo.

Ao final, a palestrante apontou caminhos para tornar o IPTU mais efetivo na promoção da justiça fiscal e social, do desenvolvimento urbano e da distribuição mais equilibrada dos ônus e benefícios da urbanização. Entre as medidas defendidas estão a regulamentação nacional de critérios para que as avaliações dos imóveis sejam atualizadas pelo Poder Executivo, a adoção de ciclos periódicos de avaliação imobiliária de quatro anos, sistemas de transição que evitem distorções e regressividade, além de maior investimento em educação fiscal.

A edição do Diálogos IJF foi transmitida ao vivo e permanece disponível no canal do Instituto Justiça Fiscal no YouTube.

Editado por: Katia Marko

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