FUTURO DO CAMPO

Pesquisa mostra pressões sobre agricultura familiar e reforça debate sobre novo modelo no RS

Fetraf-RS ouviu 662 produtores familiares em 34 municípios; clima, renda e permanência desafiam trabalhadores rurais

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Seminário 'Agricultura familiar em transformação' reuniu pesquisadores, dirigentes sindicais e governo durante a Expointer
Seminário ‘Agricultura familiar em transformação’ reuniu pesquisadores, dirigentes sindicais e governo durante a Expointer | Crédito: Rafael Rosa

Custos elevados, dependência de insumos, dificuldade para negociar preços, eventos climáticos extremos e incertezas sobre a permanência das famílias no campo pressionam a agricultura familiar gaúcha e colocam em discussão a necessidade de mudar a forma de produzir e comercializar. Esses desafios estiveram no centro de um seminário promovido pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS) na quarta-feira (2), durante a Expointer, em Esteio (RS), a partir de uma pesquisa com 662 agricultores familiares de 34 municípios.

O levantamento, desenvolvido pela Fetraf-RS com pesquisadores de cinco universidades, resultou no livro “Agricultura Familiar em Transformação: Realidade da Agricultura Familiar na Base da Fetraf-RS”. O estudo reúne dados sobre produção, mercados, políticas públicas, organização sindical e perspectivas para o futuro das propriedades.

Entre as transformações identificadas estão a especialização produtiva, o envelhecimento da população rural, as dificuldades de sucessão familiar, a concentração da terra, a dependência crescente de insumos e tecnologias externas e os impactos mais frequentes dos eventos climáticos extremos. Os grãos estão presentes em 77,2% das unidades pesquisadas.

A perspectiva de permanência no campo também preocupa. Entre os entrevistados, 45,8% planejam investir em melhorias, enquanto 53,8% pretendem manter a propriedade nas condições atuais. Outros 16,6% consideram arrendar a área e 5,3% avaliam vender a terra ou abandonar a atividade. Para a Fetraf-RS, os resultados apontam dificuldades para a continuidade das famílias na agricultura.

Felipe Toniolo, coordenador de Formação da Fetraf-RS, explicou que o processo começou em 2021, quando a entidade decidiu aprofundar o conhecimento sobre a realidade da própria base. A Federação procurou universidades, mapeou pesquisas existentes e construiu questionários para agricultores e dirigentes sindicais.

Os agricultores que responderiam ao levantamento foram sorteados, e pesquisadores ficaram responsáveis pela aplicação dos questionários. Segundo Toniolo, o cuidado buscou dar maior consistência ao diagnóstico e produzir informações capazes de orientar tanto a atuação sindical quanto a construção de um novo projeto estratégico para a agricultura familiar.

A pesquisa e o seminário fazem parte de uma discussão mais ampla promovida pela Fetraf-RS sobre alternativas ao modelo atual. Entre os caminhos defendidos estão diversificação, autonomia, garantia de renda, cooperação, fortalecimento de circuitos curtos de comercialização, assistência técnica e sistemas produtivos mais adaptados à realidade das pequenas propriedades.

‘Discutir modelo também é discutir vida’

Para o coordenador-geral da Fetraf-RS, Douglas Cenci, a mudança não pode ser reduzida à escolha de técnicas ou culturas agrícolas. A discussão passa também pelas condições de vida de quem trabalha no campo.

“Discutir modelo também é discutir vida”, afirmou Cenci. O dirigente relacionou a pressão do modelo produtivista e o endividamento ao sofrimento psicológico dos agricultores e defendeu que qualidade de vida, identidade e perspectivas de futuro façam parte da construção de alternativas.

Cenci lembrou que o processo ganhou força em 2021, num período em que a entidade enfrentava desânimo entre agricultores, dificuldades de organização e enfraquecimento das políticas públicas. A pesquisa, segundo ele, permitiu compreender melhor o cenário e avançar na busca de caminhos para um novo modelo.

No seminário, a Fetraf também destacou a importância de aproximar organizações do campo e universidades. Segundo a entidade, o diagnóstico foi pensado não apenas para registrar problemas, mas para orientar ações junto às famílias agricultoras e pressionar por políticas públicas capazes de responder às transformações em curso.

Estudo busca orientar o trabalho sindical e a construção de alternativas para o futuro da agricultura familiar
Estudo busca orientar o trabalho sindical e a construção de alternativas para o futuro da agricultura familiar | Crédito: Rafael Rosa

Clima aumenta incerteza no campo

A crise climática apareceu de forma recorrente nas falas. Secas, enchentes, vendavais e granizo se somam aos problemas de renda e aumentam o risco para famílias que dependem da produção agrícola.

Em uma das intervenções, dirigentes lembraram que nem todas as culturas e perdas encontram proteção adequada nos mecanismos existentes. “A agricultura familiar é uma indústria a céu aberto”, resumiu um dos participantes ao defender novas formas de proteção diante dos eventos extremos. Ele relatou situações em que “quem pagou a conta foi o agricultor” após prejuízos sem cobertura suficiente.

Para a Fetraf-RS, enfrentar o problema exige mais do que socorrer as propriedades depois de cada desastre. A entidade defende sistemas produtivos capazes de reduzir custos, preservar o solo, aumentar a autonomia e tornar as famílias menos vulneráveis às variações climáticas.

Quem produz nem sempre define o preço

As dificuldades também aparecem na comercialização. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sérgio Schneider destacou que, em muitas cadeias, o agricultor tem pouco poder para definir o preço recebido.

“A maior parte dos nossos agricultores não vende a sua produção, a produção deles é vendida”, afirmou. Schneider explicou que o agricultor familiar frequentemente atua como “tomador de preço”. Quando chega o momento da colheita ou o alimento está pronto, a necessidade de comercializar reduz a capacidade de negociação com compradores e intermediários.

Para o pesquisador, ampliar os mercados disponíveis é parte da resposta. Compras públicas e circuitos de proximidade podem melhorar a remuneração, mas não conseguem absorver toda a produção. Schneider também defendeu mais investimento em pesquisa e extensão rural, especialmente diante das mudanças climáticas.

Trabalho rural também expõe desigualdades

Professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Everton Lazzaretti Picolotto trouxe ao debate a situação de trabalhadores empregados em cadeias da soja, pecuária e fruticultura.

Mesmo em grandes propriedades mecanizadas, explicou, há períodos em que é necessário contratar mão de obra adicional. Agricultores familiares e assentados podem ocupar esses postos temporariamente. Na fruticultura, Picolotto destacou ainda a presença de indígenas, migrantes de outros estados e trabalhadores estrangeiros nas colheitas.

Na pecuária, chamou atenção para o contraste entre o valor de produtos comercializados e as condições de trabalho. “O peão que está trabalhando lá não tem muitas vezes nem as condições de trabalho mínimas”, afirmou. O pesquisador também defendeu o fortalecimento dos sindicatos diante das mudanças no mundo do trabalho rural.

Política pública precisa chegar ao agricultor

A professora Catia Grisa, da UFRGS, destacou que a criação de programas não resolve os problemas se governos não tiverem estrutura para executá-los.

“Além de cobrar política pública, a gente tem que cobrar a capacidade dos governos de fazer política pública”, afirmou. Ela citou como exemplos a necessidade de extensionistas, orçamento, equipes e estrutura para fazer as ações chegarem aos territórios.

Pelo governo federal, o chefe da Divisão de Articulação da Superintendência Federal do Desenvolvimento Agrário no Rio Grande do Sul, Vinícius Frizzo Pasquotto, reconheceu dificuldades na implementação das políticas.

“A principal face do governo que muitas vezes aparece para o agricultor familiar é o gerente do banco”, afirmou Pasquotto. Na avaliação dele, sindicatos e serviços de extensão discutem alternativas ao modelo convencional, mas essa orientação nem sempre está presente na intermediação feita pelas instituições financeiras.

A consequência, segundo Pasquotto, é que linhas de crédito que permitem diferentes usos podem acabar financiando o padrão produtivo já predominante em cada região.

‘Precisamos apontar caminhos’

Para a Fetraf-RS, é justamente nesse espaço entre os problemas identificados nas propriedades e as políticas disponíveis que organização sindical, pesquisa e assistência técnica precisam atuar. O desafio apresentado no seminário é transformar o diagnóstico produzido junto às famílias em alternativas capazes de combinar renda, condições de trabalho, adaptação ao clima e permanência no campo.

“Nós precisamos apontar caminhos. Quais os caminhos para construção de um novo modelo produtivo, de uma nova agricultura familiar? Eu acho que a gente tem muito a elaborar sobre isso. A gente precisa materializar para que consiga expandir também”, afirmou Cenci.

Além da publicação da Fetraf-RS, o seminário marcou o lançamento de “Novos Estudos sobre Mercados e Agricultura Familiar”, “O campo em disputa: sobre sindicalismo e trabalho rural” e “Políticas alimentares e capacidades estatais, os governos locais e os desafios de servir à mesa”.

Editado por: Marcelo Ferreira

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