Movimentos populares e organizações políticas venezuelanas realizaram uma manifestação na manhã desta quinta-feira (3) na Praça Bolívar de Caracas, capital da Venezuela, para reiterar a rejeição à normalização de relações do país com Israel. Durante a atividade, os ativistas leram um documento, subscrito por diversas frentes revolucionárias.
No texto, as organizações expressam seu “firme e categórico rechaço a qualquer iniciativa, aproximação ou negociação orientada a restabelecer relações diplomáticas, consulares ou comerciais com o Estado de Israel”. As manifestações vêmm após a Chancelaria venezuelana informar, no dia 11 de agosto, que havia iniciado os diálogos para o restabelecimento de serviços consulares israelenses no país.
“Normalizar relações no contexto atual não é um ato de neutralidade soberana, mas uma concessão de impunidade” frente às violações sofridas pelo povo palestino, adverte a carta assinada pelos movimentos. Os manifestantes fundamentam a petição oficial em artigos da Constituição venezuelana, exigindo que a política externa do país preserve a solidariedade internacional e a autodeterminação dos povos.
A Venezuela rompeu relações com Israel em 2009, quando o então presidente Hugo Chávez cortou os laços em solidariedade ao povo palestino após ataques militares na Faixa de Gaza.
Para Eliezer Arrieche, militante da Plataforma Internacional de Solidariedade com a Palestina e presente no ato desta quinta, se aproximar de Israel é um erro.
“Querem reabrir relações consulares para atender à comunidade judaica, e isso é um erro político, porque o judaísmo e o sionismo não são a mesma coisa. Existem judeus antissionistas. Além disso, nós, historicamente, há mais de 17 anos, viemos denunciando que Israel não é um Estado legítimo. Restabelecer relações consulares é legitimá-lo como um Estado e nós não pretendemos fazer isso”, argumenta.
Para o ativista, a recente decisão da diplomacia venezuelana é produto de um estado de coerção, inaugurado a partir do bombardeio realizado pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro, que terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a primeira combatente e deputada Cilia Flores.
“Para ninguém é segredo o que aconteceu em 3 de janeiro e que isso [aproximação com Israel] está sob medidas de coerção para o Estado venezuelano, sob muita pressão política. Se está negociando com um dos maiores inimigos da pátria, do mundo, do império, o império norte-americano. No entanto, os movimentos sociais têm a sua responsabilidade militante, histórica, a responsabilidade humana, inclusive a constante denúncia”, pontua Arrieche.
Baixa adesão
A mobilização desta quinta-feira teve, contudo, uma participação de público visivelmente menor do que o protesto anterior, realizado em 24 de julho. Naquela data, a indignação popular havia sido impulsionada pela presença de uma missão técnica israelense de 30 especialistas para atuar na reconstrução do país após o duplo terremoto de 24 de junho, que resultou em 6 mil mortes e mais de 23 mil desabrigados.
Laura Peña Betancourt, uma das organizadoras da atividade, reforçou que o trabalho dos coletivos em defesa da causa palestina é permanente, nos bairros, escolas e comunidades do país.
“Apesar da baixa assistência, aqui temos muitas organizações presentes. Esta atividade conta, por exemplo, com a Frente Anti-imperialista Popular, o Movimento de Solidariedade Venezuelano com a Palestina, a Plataforma Internacional de Solidariedade com a Palestina, representantes do Partido Comunista da Venezuela Dignidade, os comitês organizacionais, os movimentos de base”, explica.
Mauz Mussa é refugiado palestino e vive há 13 anos na Venezuela. Para ele, o combate ao sionismo vai além da solidariedade passiva. Mussa frisou que “o tema não é se solidarizar com o povo palestino por uma causa alheia ou por ter sentimentos em relação a essas crianças e a essas mulheres, mas sim uma defesa própria desses povos por sua soberania e por seus recursos”.
“O sionismo tenta reinstalar e redefinir a humanidade de modo que exista uma elite que continua empobrecendo os nossos povos”, afirma. “Que as crianças e as mulheres na Palestina estão atravessando poderia ser atravessado por toda a humanidade, e já o estão vivendo. São maneiras diferentes de opressão. Na Palestina, se traduz em genocídio; no Brasil, se traduz em empobrecer mais as classes marginalizadas ao longo da história e continuar convertendo-as em escravas na versão do século 21. Mas nós recusamos isso. Não somos povos separados”, completa o refugiado palestino.
Para Mussa, o mundo vive uma encruzilhada histórica. “Ou se impõe a barbárie do sionismo e do imperialismo norte-americano, ou se sagra vitoriosa a resistência do nosso povo em defesa da humanidade”, conclui.
Racha no movimento
Apoiadores do governo de Delcy Rodríguez e críticos à gestão da presidente em exercício discutiram em microfone aberto durante o ato desta quinta. Tudo começou quando Rafael Uzcátegui, dirigente do Partido Pátria Para Todos (PPT) tomou a palavra e teceu duras críticas ao acordo petroleiro firmado entre Estados Unidos e Venezuela na última semana.
A ativista Hindu Anderi, coordenadora da Plataforma Internacional de Solidariedade com a Causa Palestina e defensora da gestão nacional, se exaltou, tomou o microfone na mão e alertou para o risco de instrumentalização do ato contra o governo central.
“Não podem colocar todos nós no mesmo saco contra o governo nacional”, declarou. Anderi ressaltou a importância de preservar a coesão do movimento em torno à causa palestina.
“Se a unidade é um valor, não a quebremos, camaradas, não a quebremos. Que fique claro: nem todos temos a mesma compreensão da situação que se está vivendo agora, e é preciso respeitar os lemas que estão estabelecidos para esta mobilização”, disse a ativista. “É uma armadilha que nos tragam a esta convocatória e depois aqui nos coloquem contra o governo. Isso é uma armadilha. Não podemos aceitar, porque existe diversidade dentro deste movimento, existe diversidade dentro deste espaço. Respeitemos então a diversidade”, suplicou.
Na sequência, a militante do Movimento Primeiro de Maio Zuleika Matamoros rebateu a posição de Anderi e afirmou que o petróleo “roubado” pelos Estados Unidos a partir dos acordos firmados com o governo venezuelano abastece o genocídio em Gaza.
“A unidade de ação nos acolhe e somos diversos, mas nos une o que hoje temos que enfrentar, que é o restabelecimento das relações com o Estado genocida e sionista de Israel e a tutela de Donald Trump. Por isso, não se incomodem muito se alguma vez viram alguém de quem não gostaram, porque o que de fato deve ser observado é onde eles estão sentados, em Miraflores, realizando altos convênios petrolíferos para continuar assassinando crianças em Gaza”, retrucou a militante do bairro 23 de Enero.
Apesar das divergências internas sobre a condução política nacional, os manifestantes prometeram seguir mobilizados nas ruas contra a interferência externa e a normalização de relações com Israel e realizar mais marchas em defesa do povo palestino e contra Israel e os Estados Unidos.
