Extrema direita

Radiografia da deportação: brasileira relata drama de retorno forçado ao país em meio à caça a imigrantes nos EUA

Governo Trump bate consecutivos recordes de prisões, com prisão de 51 mil detidos em agosto, a maioria sem condenação

No audio source provided.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. | Crédito: Saul Loeb / AFP

Era junho de 2025 quando a brasileira Alice, que morava no Havaí, nos Estados Unidos, teve que encarar, pela primeira e definitiva vez, o cerco dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) do país. Ao atender o telefone, ouviu de um dos agentes do agrupamento: “A gente está em frente à sua casa.” Primeiro, Alice achou que a ligação fosse um trote. Depois, entendeu que as autoridades a estavam obrigando a se apresentar ao ICE em data marcada, com a bagagem pronta, a filha de sete anos e o companheiro. Uma semana depois do primeiro contato, Alice largou tudo e comprou a passagem de volta para o Brasil.

Antes daquela ligação, Alice acumulava quase 11 anos de vida no arquipélago. Chegou aos Estados Unidos pelo Ciência sem Fronteiras, passou por Michigan, voltou como turista e se fixou no Havaí. A filha, hoje com oito anos, é nascida estadunidense. Os longos anos por lá foram frutíferos: Alice abriu uma empresa de faxina, financiou o carro e pagava regularmente os impostos. Ao custo de muito trabalho. “Aqui o negro tem que ralar para sobreviver. Você consegue ter qualidade de vida, consegue comprar um carro, tem um poder de compra melhor, mas trabalha tanto quanto no Brasil”, explica, em conversa com o Brasil de Fato

Para consolidar de vez a estabilidade nos EUA, faltava o green card. Sem documento, Alice recorreu à ideia de se casar com um amigo, para que pudesse obter a autorização definitiva. Uma denúncia feita em 2022 estremeceu o plano. Ao descobrirem a irregularidade, os agentes do serviço de cidadania e imigração cancelaram o processo de regularização da brasileira. Alice não foi presa nem recebeu carta de deportação, e seu advogado avaliou que, com mais de dez anos nos EUA, uma filha e nenhuma passagem criminal, o risco de expulsão era baixo.

Por três anos, nada aconteceu. Até que a volta de Donald Trump ao poder, em janeiro do ano passado, mudou os cálculos. Quando os agentes do ICE voltaram a procurá-la, o advogado que a brasileira contratou por US$ 1.500 não encontrou nenhum processo aberto no nome de Alice, mas alertou que a legislação estadunidense já não era mais aplicada como antes. “Ele disse que tinha pessoas com 20, 30 anos sendo deportadas sem o direito de defesa”, relata Alice. 

“Fiquei com medo de buscar minha filha na escola. Saí imediatamente da casa em que estava. Em menos de uma semana, larguei tudo, e os amigos foram lá tirar as coisas que eu tinha”, diz. Alice chegou a se esconder na casa de uma amiga naturalizada estadunidense, a única disposta a recebê-la, porque os agentes rondavam os endereços de quem pudesse abrigá-la. Chegou a cogitar morar no carro para não expor ninguém. A filha não tinha visto para entrar no Brasil, e Alice se desdobrou para resolver a documentação antes de entrar.

A volta ao país natal não encerrou o sofrimento da família. “Minha filha chegou ao Brasil sem falar português. É filha de brasileiro, entendia, mas não falava. Sofreu muito, chorava muito. Eu entrei em depressão. A gente está até hoje tomando remédio”, relata Alice, que agora vive em Fortaleza, para onde o pai da criança também conseguiu se mudar meses depois. “Foi desumano tudo o que aconteceu.”

Cerco implacável

Alice não é um caso isolado. Somente no último mês de agosto, o ICE prendeu cerca de 51 mil pessoas, segundo dados do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), responsável pela política linha-dura do governo Trump. Esse é o maior registro de prisões em um único mês desde que Trump endureceu a política de deportação. 

“Isso é a prova de promessas feitas e cumpridas na prática. Sob a liderança do presidente Trump, o ICE trabalha incansavelmente, todos os dias, para deter e deportar imigrantes ilegais das comunidades americanas”, comentou o secretário do DHS, Markwayne Mullin. “Se você está no país ilegalmente, VÁ EMBORA AGORA”. 

Os números são altos, crescentes e dão conta da quase completa falta de critério da gestão republicana. As prisões e deportações ignoram se as vítimas já são alvos ou não de processos na Justiça estadunidense, como foi o caso de Alice. Em junho, foram 43 mil detenções, enquanto as de julho somaram 49 mil, segundo registros analisados pelo jornal The New York Times. O número de voos de remoção bateu recorde em julho, com ao menos 329 saídas do país, segundo monitoramento da organização Human Rights First

A caça a pessoas em situação irregular virou um fim em si mesmo. Segundo a análise feita pelo NYT, a parcela de pessoas presas e que já tinham condenação anterior por crime violento caiu para menos de 4%. O argumento da Casa Branca, agora, é que a situação irregular, por si só, é o crime a ser combatido. Na prática, o combate desconsidera o direito ao contraditório. 

Para o professor Rafael Ioris, que leciona História Latino-Americana na Universidade de Denver, o que alterou foi, sobretudo, a escala. “Quando o Trump assume, a média de prisões não chegava nem a 10 mil por mês. Hoje, é de cinco vezes mais”, contextualiza, em conversa com o Brasil de Fato. A imigração foi peça central nas duas eleições do republicano, mas o segundo mandato, até o momento, mostra que a engrenagem ganhou força. “O governo Trump 2.0 é muito mais bem organizado, eficiente, agressivo e muito mais ostensivo. O ICE está muito mais aparelhado e financiado”, diz Ioris. 

Há dois caminhos principais pelos quais o ICE ficou mais robusto. Primeiro, o salto de 21 mil para 29 mil funcionários, do início do segundo mandato de Trump até o último mês de julho, segundo o Escritório de Gestão de Pessoal. Segundo, o fato de que o organismo passou a se apoiar, ainda mais, em polícias estaduais e municipais. O programa que delega a agentes locais o poder de prender imigrantes, conhecido como 287(g), já responde por cerca de 14% das detenções. “Trump está colocando muito mais pressão, forçando para que polícias locais cooperem”, diz Ioris, salientando que nem mesmo estados e cidades governados por democratas escapam à empreitada de Trump.

A saída de Kristi Noem do Departamento de Segurança Interna, em março, por conta de críticas à truculência das operações, abriu caminho para o senador republicano Markwayne Mullin. Ele chegou prometendo uma fiscalização mais discreta, embora mais eficaz. A meta do governo é chegar a pelo menos duas mil prisões por dia, o que já está no horizonte imediato. Isso só será possível, porém, com uma maior capacidade de detenção. O governo promete abrir 100 mil novas vagas em unidades prisionais estadunidenses. 

Um dos símbolos materiais do novo modus operandi do ICE será o uso, por parte dos agentes, de luvas capazes de aplicar choques elétricos, fabricadas pela empresa Compliant Technologies, do Kentucky. O ICE fechou o contrato, sem licitação, em agosto, no valor de US$ 16,7 milhões. Cada par deve custar cerca de US$ 2,5 mil e a entrega está prevista para março de 2027. Senadores democratas e entidades de direitos civis pediram o cancelamento da compra, dizendo que o dispositivo facilitará a prática de abusos mais difíceis de serem identificados. Foi em vão.

Entre idas e vindas, a imigração

Trump é mais vocal e abertamente combativo quanto à imigração. Mas a opinião pública estadunidense, historicamente, sempre encarou o tema com ambiguidade: ao mesmo tempo que apoia, majoritariamente, ações de fiscalização sobre imigrantes, não deixa de reconhecer, ainda que tacitamente, a necessidade que o país tem de aceitar a força de trabalho vinda de fora, central para a atividade econômica dos EUA.

“Sempre houve algum grau de arbitrariedade, porque é um assunto não só de polícia, mas político. Mas a escala com que isso acontece é muito nova, agora”, avalia Ioris. A pressão por cotas influencia a atuação nas ruas. “Você pode ser parado por uma questão de trânsito, passar no sinal vermelho, a polícia vem, pede seus documentos. Você pode, inclusive, ser cidadão, mas não ter como provar”, destaca. “Os policiais agem de maneira muito ideologizada”. 

Nos EUA, uma das questões centrais diz respeito à incerteza sobre se a dureza das operações traduz ou não a relação com a imigração, em si. Uma pesquisa do instituto Gallup mostrou que 73% da população do país ainda consideram a imigração benéfica aos EUA. Além disso, uma projeção da Universidade da Pensilvânia revelou que, caso os EUA deportem 10% dos imigrantes sem documento a cada ano, até 2028, o déficit federal poderia ser elevado em US$ 350 bilhões, com uma redução de 1% do PIB. Essas condições levariam a uma maior perda de poder econômico da população, já angustiada pela economia engasgada. 

“Desde o período Ronald Reagan [1981-1989], mesmo entre os republicanos, havia essa ambiguidade. Funciona muito bem, do ponto de vista eleitoral, vilificar o imigrante. Mas grandes empresários, especialmente na agricultura, compravam a narrativa e, por trás, faziam acordos com o governo para dar anistia, um visto de trabalho, porque precisam dessa mão de obra barata”, aponta Ioris.

O futuro próximo deverá confirmar o peso da pauta nas eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para o dia 3 de novembro. Para Ioris, ao menos atualmente, “a imigração deixou de estar na vitrine da discussão política”. “Pode ser que volte agora, mas há tantas outras coisas. As pessoas estão falando mais da inflação e da guerra no Irã”, diz o professor, citando alguns dos tópicos que rondam a cabeça do eleitorado estadunidense. O aumento das prisões ou eventuais episódios mais violentos podem recolocar o assunto no centro da pauta, mas Ioris pondera: “A não ser que haja uma nova morte, algo que ocupe as câmeras nas próximas semanas, eu não acho que vai ser um fato preponderante ou decisivo na eleição.”

Agora, já longe do território estadunidense, Alice tenta recompor a vida. Apesar das dificuldades, a filha vem aprendendo o português. “Estou tentando fazer uma limonada com os meus limões. Só agora estou conseguindo falar disso tudo”, diz a brasileira. A política implacável do governo Trump também renega a maioria dos que deixam os EUA ao silêncio.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter