7 de setembro

Grito dos Excluídos defende soberania na eleição e vida das mulheres no Distrito Federal

Manifestação ocupou Praça Zumbi dos Palmares com protagonismo das mulheres na luta por direitos

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32º Grito dos Excluídos no Distrito Federal
32º Grito dos Excluídos no Distrito Federal | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

A Praça Zumbi dos Palmares, no Distrito Federal, foi palco da 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas na manhã desta segunda-feira (7). Há mais de três décadas, o ato questiona a Independência do Brasil do ponto de vista dos marginalizados e reivindica melhores condições de vida. O tema deste ano combina a defesa da terra e da habitação ao debate sobre soberania nacional e ao enfrentamento do feminicídio no país.

A coordenadora nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Elisa Mergulhão, ressaltou a centralidade da disputa eleitoral para definir os rumos da nossa soberania em relação às tentativas de interferência dos Estados Unidos. “Nosso questionamento com relação à independência adquire uma camada mais politizada com esse debate da soberania”, refletiu. 

“Estamos num processo de ataque dos EUA, do Donald Trump, que já declarou que pretende intervir no nosso processo eleitoral e que está claramente apoiando um candidato na disputa. Flávio Bolsonaro é o candidato do trumpismo, do bolsonarismo, e também da corrupção do caso Master”, disse ao Brasil de Fato DF.

O contexto das eleições marcou a manifestação do Grito dos Excluídos em Brasília. Diversas falas destacaram que o processo eleitoral será decisivo. Thaísa Magalhães, Secretária de Mulheres da Central Única de Trabalhadores (CUT-DF), defendeu um desfecho no primeiro turno. “A gente não pode deixar escapar essa chance da manutenção da vida, da manutenção da paz”, disse.

“Quando a gente fala que o mundo tem entrado mais de cabeça na crise do capitalismo e nas guerras, a gente esquece que, na periferia do Brasil, a guerra nunca deixou de existir. Tenho dito que a gente não está vivendo um processo eleitoral, a gente está vivendo um processo de plebiscito. O que a gente vai decidir esse ano é se a gente continua a ter um país onde tem uma democracia”, continuou Thaisa.

Na mesma linha, Elisa Mergulhão, do MAB, associou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a esse compromisso. “A luta que a gente faz é nas ruas, é cobrando os direitos, é cobrando o avanço das políticas públicas para o povo brasileiro, mas é também uma luta para defender o legado da construção do Brasil e da soberania com a reeleição do presidente Lula”, afirmou.

Thaísa Magalhães, da CUT-DF, associou o candidato Flávio Bolsonaro ao escândalo do Master
Thaísa Magalhães, da CUT-DF, associou o candidato Flávio Bolsonaro a entrega da soberania brasileira para os EUA | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

Direito à moradia

O primeiro Grito surgiu por iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e teve forte influência da Campanha da Fraternidade. O tema adotado este ano foi “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”.

A falha das políticas públicas de habitação foi um tema central da 32ªedição. Há mais de um ano, mais de 60 famílias foram desalojadas sem aviso prévio em uma das regiões administrativas mais vulneráveis do DF. A derrubada da comunidade Fazendinha, no Sol Nascente, foi lembrada com tristeza pela Irmã Geralda, do Coletivo Mulheres do Sol, organizado pela Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado (MJC). 

Irmã Geralda relatou situação de abandono das mulheres na comunidade da Fazendinha, no Sol Nascente (DF)
Irmã Geralda relatou situação de abandono das mulheres na comunidade da Fazendinha, no Sol Nascente (DF) | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

Segundo a irmã, sobraram apenas os escombros e o poder público não retornou para reconstruir as casas. A maioria das famílias é de mães sozinhas que não conseguem trabalho por não ter onde deixar os filhos, relatou Geralda. “Na região mais próxima, só existe uma escola. Lá na Fazendinha falta tudo, é uma ponta esquecida. A maioria somos mulheres em busca da vida, de moradia. Estamos gritando por direitos”, disse.

Pela vida das mulheres

O enfrentamento da violência contra as mulheres sobressaiu como principal tema do ato. Para Rozangela Piovizani, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), isso acontece porque o país vem numa ofensiva de criminalização e violência sem precedentes, que exige seriedade e cuidado. Ela cita como exemplo da estrutura machista a lei da alienação parental

“O sistema capitalista reforça essa dominação e usa esse mecanismo de chantagem. As próprias instituições de justiça não conseguem avançar para além de uma lei fria. É preciso olhar com cuidado às situações e apoiar as mulheres, dando mais segurança para elas e para seus filhos”, afirma.

Ela defendeu que manter mulheres vivas significa também dignidade, igualdade de oportunidade e respeito a escolhas sobre o próprio corpo. Outro ponto é a sobrecarga das mulheres com o trabalho de cuidado

“É preciso ter uma reparação financeira, com apoio psicológico, para cuidar com dignidade de outra pessoa. É uma carga absurda para as mulheres, que deveria ser do Estado e de toda a sociedade”, defende Piovizani.

Um dos momentos mais simbólicos dessa luta foi representado na fala da coordenadora-geral da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) Cleide Silva Pereira. “Estamos gritando nessa praça histórica que é Zumbi dos Palmares, que 90% do trabalho doméstico é de mulheres negras. A gente quer os nossos direitos garantidos e não a escravidão moderna”, bradou.

Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) marcou presença no Grito dos Excluídos no DF
Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) marcou presença no Grito dos Excluídos no DF | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

Ela lembrou de Sônia Maria de Jesus, trabalhadora negra resgatada em 2023 da casa de um desembargador em Florianópolis (SC) após décadas de trabalho análogo à escravidão. O caso escancarou a fragilidade da proteção às vítimas por uma decisão que “devolveu” Sônia à família que a manteve explorada, em condições precárias e sem direitos trabalhistas. 

“Se isso virar moda, a gente volta de novo para a senzala que prendeu nossos antepassados. Estão querendo nos prender de novo com esse cativeiro moderno”, afirmou Cleide, que também é secretária-geral da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Trabalhadoras Domésticas (Conlactraho).

Mulheres na linha de frente 

Em sua fala, a presidenta do Centro de Formação e Cultura Nação Zumbi, Cláudia Regina, exaltou a luta por respeito e dignidade das mulheres em todas as áreas e escolhas de vida. “Meu grito também é por mais mulheres progressistas na política”, declarou. 

“Estamos aqui para gritar por nós, mulheres, dizer que criança não é mãe. O Grito deste ano é por mulheres vivas, felizes, saudáveis e seguras. A parte mais bonita do desfile de 7 de Setembro é o civil, e o pelotão das mulheres reafirmou o compromisso do governo Lula com nós mulheres. Nada de passo atrás; nosso caminho é sempre em frente, com dignidade, justiça e sororidade”, finalizou Cláudia. 

Cláudia Regina ressaltou a defesa da vida das mulheres entre os temas do Grito dos Excluídos este ano
Cláudia Regina ressaltou a defesa da vida das mulheres entre os temas do Grito dos Excluídos este ano | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

A importância do voto em candidaturas comprometidas com a democracia e com os mais vulneráveis também foi destaque na fala da Mãe Baiana, representando povos e comunidades tradicionais de matriz africana.

“Nós precisamos juntar o nosso povo na Câmara distrital. Não adianta votarmos para o Senado em pessoas que não estejam do nosso lado, que não sejam da esquerda. É emergência pelo resultado das eleições passadas, pelo que estão querendo fazer com o STF, é muita emergência e nós precisamos disso”, afirmou a liderança religiosa.

Patrimônio

Além de garantir direitos e democracia no país, o presidente do Sindicato dos Bancários, Rodrigo Britto, trouxe para o ato no Distrito Federal a defesa do Banco de Brasília (BRB) como patrimônio público. O dirigente também destacou que a violência contra a mulher precisa ser enfrentada por todos.

“O Grito dos Excluídos é de grande relevância, principalmente pelas pautas que trata, a luta contra o feminicídio, uma vez que é uma situação muito vergonhosa no nosso país, em que a cada seis horas uma mulher vem a óbito, e também a luta em defesa da soberania nacional, uma vez que ela está em risco e precisamos garantir que nessa eleição a democracia novamente vença”, disse Britto.

“O Grito em Brasília traz o diálogo sobre o nosso Banco de Brasília, que é um patrimônio do povo do Distrito Federal, fazendo a defesa do BRB e denunciando a gestão de Ibaneis e Celina, que é responsável por essa crise dentro do banco”, completou.

Defesa da soberania nacional foi destaque entre os manifestantes no Grito dos Excluídos no DF
Defesa da soberania nacional foi destaque entre os manifestantes no Grito dos Excluídos no DF | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

Construção coletiva

O Grito dos Excluídos é realizado anualmente no dia 7 de setembro desde 1995 e reúne dezenas de organizações sociais, sindicatos, igrejas, pastorais e movimentos populares em atos por todo o país, denunciando as desigualdades e propondo caminhos para a construção de um país mais justo, soberano e fraterno.

O ato no DF também contou com uma homenagem póstuma ao professor Daniel Higino, militante do PT-DF e integrante da coordenação da Rede de Mobilização Popular Paz e Esperança. Ele foi lembrado como exemplo de humildade, humanidade e compaixão pela sua trajetória como servidor na Secretaria de Educação e também pela construção do Grito dos Excluídos em Brasília.

Em Brasília, estiveram presentes no ato o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), a União Nacional dos Estudantes (UNE), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Levante Feminista pelo Fim do Feminicídio, o Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e a Pastoral do Menor, além dos partidos políticos PT, PCdoB, UP, PCO, PCB, e de organizações sindicais como Central Única dos Trabalhadores (CUT), Associação de Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) e Sindicato dos Professores (Sinpro-DF).


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Editado por: Clivia Mesquita

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