Liberdade e Axé

Caminhos de Exu reivindica liberdade religiosa como outra forma de independência em Brasília

Povos de terreiro se reuniram na W3 Sul para afirmar a ancestralidade e o direito de exercer livremente a própria fé

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Mãe Baiana toma a palavra diante do público durante o Caminhos de Exu: “Nosso povo veio afirmar a sua ancestralidade”
Mãe Baiana toma a palavra diante do público durante o Caminhos de Exu: “Nosso povo veio afirmar a sua ancestralidade” | Crédito: Maurício C

Em um 7 de Setembro marcado pelas celebrações da Independência do Brasil, povos de terreiro ocuparam a W3 Sul, em Brasília, para reivindicar outra forma de liberdade: o direito de exercer a própria fé sem preconceito. A segunda edição do Caminhos de Exu reuniu, na segunda-feira (7), manifestações culturais e religiosas, artistas e famílias em um ato de celebração à ancestralidade e enfrentamento ao racismo religioso.

A ocupação levou para a rua uma reivindicação que atravessa a história das religiões de matriz africana: o direito de existir, cultuar e celebrar a própria fé sem sofrer preconceito ou racismo religioso.

“Esse dia representa uma independência, mas a gente se pergunta: independência para quem? Sendo que nós ainda sofremos muito preconceito?”, questionou Taina Ramos, integrante da equipe de produção do Caminhos de Exu.

Para ela, o evento também foi uma oportunidade de apresentar a cultura dos povos de terreiro a quem ainda não a conhece. “Estamos aqui com nossos companheiros, nossos irmãos de axé, nossos irmãos de santo, simpatizantes, para conhecer um pouco da nossa cultura, dessa ancestralidade, dessa cultura de terreiro, dessa cultura de povo, da cultura dos povos pretos”, afirmou.

Participantes do Caminhos de Exu ocupam a W3 Sul, em Brasília, com música, tambores e manifestações culturais e religiosas
Participantes do Caminhos de Exu ocupam a W3 Sul, em Brasília, com música, tambores e manifestações culturais e religiosas | Crédito: Maurício C

Independência para quem?

A escolha do 7 de Setembro trouxe para o centro da celebração uma discussão sobre o significado da liberdade para as comunidades de matriz africana.

Participante do evento, Davi Amado afirmou que a ocupação representou a possibilidade de expressar publicamente uma espiritualidade que, muitas vezes, ainda é silenciada.

“Em tantas situações, a gente não pode expressar a nossa religião. A gente tirou um momentinho para poder cultuar nossa espiritualidade e ser firme naquilo que a gente quer”, disse.

Para Pai Antônio, diretor do Centro Espírita ECIC Perambranca, localizado na Ponte Alta, no Gama, e secretário da Federação Irapuru, iniciativas como o Caminhos de Exu são importantes para enfrentar o preconceito.

“É um evento que une a religião em prol de uma única coisa: menos preconceito, menos racismo religioso”, afirmou.

A ocupação da W3 também carregava esse simbolismo. Levar os cânticos, os tambores, as danças e as manifestações religiosas para uma das principais avenidas de Brasília significou tornar visível uma cultura e uma religiosidade que, historicamente, foram alvo de perseguição e estigmatização.

Entre pessoas de diferentes idades, casas e tradições, o espaço se transformou em um grande ponto de encontro. Enquanto algumas pessoas acompanhavam as apresentações, outras circulavam pela feira montada no local. Crianças corriam entre o público e famílias inteiras acompanharam a programação.

Exu é caminho

No centro da celebração estava Exu, figura fundamental para diferentes tradições de matriz africana e que ainda é alvo de demonização e preconceito. Para Mãe Baiana, Exu representa caminho e comunicação.

“Exu é o caminho, Exu é quem traz para nós a comunicação”, afirmou. “Nosso povo veio afirmar a sua ancestralidade. A ancestralidade do povo de terreiro que está aqui hoje.”

Ao longo do dia, as manifestações religiosas e culturais se encontraram na avenida. O público dançou ao som dos tambores, enquanto cânticos e saudações atravessavam o espaço.

A celebração também foi uma forma de reafirmar a ancestralidade e disputar os sentidos atribuídos às religiões de matriz africana.

A rua também é terreiro

Tambores e vozes embalaram a ocupação da W3 Sul por povos de diferentes tradições de terreiro
Tambores e vozes embalaram a ocupação da W3 Sul por povos de diferentes tradições de terreiro | Crédito: Maurício C

A música foi uma das principais formas de ocupar o espaço. O grupo Filhos de Zé levou para a programação uma mistura de percussão, canto e referências à ancestralidade.

Para Fábio Souza, vocalista e percussionista do grupo, participar de um encontro como o Caminhos de Exu tem um significado especial pela diversidade presente no evento.

“É um prazer estar aqui participando desse evento que promove uma multiplicidade cultural e religiosa. Sem preconceito nenhum”, afirmou.

A vocalista e percussionista Ed Souza também destacou a diversidade que marcou a ocupação. “Para a gente é muito bom estar aqui celebrando o axé, a ancestralidade, a música, a religião e a diversidade”, disse.

Bernardo Mota, também integrante do grupo, ressaltou a força de reunir pessoas de diferentes casas e tradições em um mesmo espaço. “Trazer tanta gente de casas diferentes, de coisas diferentes, mas que trazem essa energia boa, que é o movimento”, afirmou.

Ao final, entre o cheiro do incenso, as barracas da feira, os tambores e as pessoas, o Caminhos de Exu deixou uma pergunta que dialoga com o feriado: que independência é possível quando ainda é preciso lutar pelo direito de exercer livremente a própria fé?

Para Taina Ramos, ocupar a rua também é abrir caminhos. “O caminho está aberto para passar, para ir e vir. Estamos aqui ocupando a rua com o Caminhos de Exu”, afirmou.


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Editado por: Clivia Mesquita

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