Bares pela Democracia

O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.

Bares Pela Democracia: por que surgimos e seguimos

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Em 2024, aconteceu 5º Festival Bares pela Democracia neste sábado, no Largo do Arouche, em São Paulo
Em 2024, aconteceu 5º Festival Bares pela Democracia neste sábado, no Largo do Arouche, em São Paulo | Crédito: Junior Lima

A partir de hoje, o Bares Pela Democracia está entre os colunistas do Brasil de Fato para fortalecer e ampliar essa rede comunitária de apoio.

O grupo Bares Pela Democracia se formou nas eleições presidenciais de 2022 para fortalecer a campanha do Partido dos Trabalhadores com Lula, após articulação do Movimento Brasil Popular e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que mobilizou bares, restaurantes, cafés e outros atores com ações culturais no centro de São Paulo. Foram três festivais apoiando a candidatura petista, dois no Espaço Cultural Elza Soares e um na Ocupação 9 de Julho com diversos setores da esquerda. Saímos vitoriosos e, mais do que isso, com uma rede de pessoas dispostas a pensar a cidade de uma forma diferente a partir do ponto de vista do bar.

A partir dali, começamos a discutir os rumos a serem tomados e os problemas do dia a dia dos bares. Por mais variados que fossem os assuntos, um tema era geral: o acesso à cidade, especificamente o centro por ter sido o local de formação do grupo. É mais um território que está sofrendo com a especulação imobiliária, higienização e gentrificação, que resultam, entre outras questões, na expulsão dos pequenos comércios.

Como somos a linha de frente, as distorções da lei se aplicam de forma muito visível, como as truculentas fiscalizações realizadas pela Prefeitura. Por este motivo, em maio de 2023, publicamos nas nossas redes sociais uma Carta Aberta identificando as situações a que os bares são expostos e o impacto que estas ações provocam.

Nossa intenção era (e ainda é) buscar diálogo com o Poder Público e, também, uma saída viável aos conflitos existentes entre comunidade e comerciantes, priorizando orientações ao invés de punições, de onde surgiu uma cartilha com diretrizes básicas aos estabelecimentos de como agir em algumas situações.

Esta carta foi lida e distribuída em uma audiência pública, realizada na Câmara dos Vereadores, cujo tema foi A Deterioração do Centro de São Paulo. A convite de Jair Tatto (PT), debatemos o tema ao lado dos Comitês Populares do Centro e Adjacências, Associação Comercial de São Paulo e Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel/SP), representantes da Guarda Civil Metropolitana, Polícia Militar, Polícia Civil, Prefeitura e Programa Silêncio Urbano (Psiu). Desta audiência, formou-se um grupo de trabalho na Câmara para revisar a lei do Psiu, no qual temos uma cadeira permanente, com os trabalhos ainda em andamento.

No início de 2024, encampamos o debate da Lei Não Se Cale, orientando os bares do coletivo a como participar do treinamento e contribuindo com o debate, a convite da vereadora Silvia da Bancada Feminista (Psol), ao participar da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência e Assédio Sexual Contra Mulheres.

Próximo às eleições municipais daquele ano, em nova articulação com os nossos parceiros de base, bolamos uma história a ser contada nos festivais que seriam realizados em apoio às candidaturas progressistas, que foram: A Cidade Que Queremos, Outra Cidade É Possível e A Cidade É Nossa.

Reunimos milhares de pessoas no Elza Soares, Largo do Arouche e Praça Roosevelt, mostrando a força da pauta e a ânsia de parte da população em ter acesso a música, gastronomia, teatro, artes plásticas, cênicas, artesanato, feiras e todo o conjunto de expressões culturais que trouxemos naqueles movimentos. Cultura acessível e uma cidade viva eram os recados.

Passadas as eleições, ao longo de 2025 e 2026, pudemos ter uma amostra do que significa o alinhamento entre Governo do Estado e Prefeitura. Foram acentuadas as políticas que carregam nomes mais suaves para disfarçar o que pretendem. Assistimos à privatização dos parques com o nome de concessão e ao despejo violento da Favela do Moinho sob o argumento de reorganização urbana.

Esta mesma denominação serviu de pretexto para a ação violenta na Cracolândia, que gerou o despejo do Teatro de Contêiner e diversos moradores do entorno, e a tentativa de fechamento do Centro de Acolhida Especial Para Famílias (CAEF) Ebenezer e o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, importantes locais na Zona Leste de apoio a imigrantes e pessoas em situação de rua.

Vimos a mudança da administração do carnaval para a SPTuris transformar a festa de rua em um grande show (no pior sentido da palavra), com os investimentos voltados para os megablocos, impedindo economicamente uma festa que é feita pelo povo para beneficiar as patrocinadoras.

Ao mesmo tempo que sufoca essas vozes, a Prefeitura de São Paulo valoriza o que vêm dos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs), que são espaços divididos em distritos onde moradores, comerciantes e representantes do poder público debatem questões dos bairros. A ideia é ótima e, de fato, saem soluções interessantes destas reuniões, mas os que estão situados em bairros boêmios servem basicamente como canal de reclamação contra bares e restaurantes, muitas vezes estimulado pelos próprios presidentes dos conselhos.

Esta é a desculpa utilizada nas fiscalizações semanais na Barra Funda, que culminaram no fechamento recente de bares sem uma justificativa clara, impedimento de eventos culturais nas ruas e no assédio ao Bar do Chagas, local histórico de samba na região.

O mesmo não se aplica ao Vale do Anhangabaú, controlado pelo Consórcio Viva o Vale (Urnbancom e WTorre Entretenimento) desde 2021, que abusa do uso do espaço público com eventos gigantes, em que cobram entrada e não respeitam o entorno. Porém, são grandes empresas, então contam com a extrema boa vontade da gestão municipal.

Agora, a urgência se concentra nos polos gastronômicos nos parques e no possível despejo do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança. A primeira, é sobre a exploração comercial com venda de bebidas e alimentos em 46 áreas de 31 parques, sem consulta aos conselhos gestores e ignorando questões básicas como o manejo do lixo gerado por essas atividades e a necessidade de obras em locais tombados, como a cancha de bocha no Parque da Aclimação e a Serraria no Ibirapuera.

Já na Zona Norte, o despejo do Cruz da Esperança, que é onde acontece, entre outras atividades culturais, o Samba do Cruz, está relacionado à concessão do Parque Municipal Campo de Marte ao Consórcio Cântaro SP.

Segundo o texto do abaixo-assinado divulgado: “A preocupação com o futuro do território se intensificou após um episódio recente ocorrido na área conhecida como Campo Aliança, também situada no perímetro do projeto. Conforme vídeos que circulam nas redes sociais, uma moradora foi alvo de ação de reintegração de posse movida pela Prefeitura de São Paulo, que autorizou inclusive o uso de força policial para cumprimento da ordem. Após o despejo e a demolição do imóvel, foi oferecido à moradora apenas um auxílio-aluguel de R$ 400,00. O episódio acendeu um alerta entre moradores e frequentadores da região, que passaram a temer que situações semelhantes possam atingir outros espaços históricos do território, incluindo o próprio Cruz da Esperança”.

A gestão Ricardo Nunes não assume a cidade de São Paulo como o espaço pulsante culturalmente que é e não busca organizar os conflitos de modo a manter a harmonia entre os envolvidos. O que se vê são políticas permanentes para não atingir um fim que seja social e economicamente benéfico para a população, mas sim para grandes empresas que tratam nossas vidas como negócios.

A política vigente nega nossos direitos sociais, atingindo toda a população. Assim, entendemos ser necessário nos contrapor ao discurso oficial, contribuindo com a nossa experiência e abrindo espaço para as pautas da cidade que vão além dos bares. A partir de hoje, o Bares Pela Democracia está entre os colunistas do Brasil de Fato para fortalecer e ampliar essa rede comunitária de apoio, visando o diálogo e valorização da cultura como base da política paulistana.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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