A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver emerge, neste momento histórico, como uma das mais potentes expressões políticas do Brasil contemporâneo. Em um país marcado por desigualdades estruturais, crises econômicas recorrentes e persistentes violações de direitos humanos, a marcha não é apenas um ato de mobilização: é uma leitura do Brasil e, sobretudo, uma proposta de futuro formulada pelas mulheres que historicamente sustentaram a democracia e a vida em nosso território.
Num cenário de rearticulação da extrema direita, de disseminação de discursos de ódio e de ataques ao Estado Democrático de Direito, as mulheres negras colocam novamente seus corpos e suas vozes no centro do debate nacional. Fazem isso não para reivindicar um lugar marginal, mas para disputar o projeto de nação. A marcha afirma que não haverá democracia substantiva enquanto o país não enfrentar sua dívida histórica com o povo negro, enquanto não houver reparação econômica, simbólica e institucional, e enquanto o Estado brasileiro continuar reproduzindo racismo, desigualdade e violência.
A dimensão política da marcha é inegável. Mulheres negras são hoje o sujeito político mais organizado, coerente e persistente da luta democrática no Brasil. São elas que denunciam o desmonte de políticas públicas, evidenciam a violência institucional, protegem os territórios, enfrentam o fundamentalismo e sustentam redes comunitárias. No Congresso, nos movimentos, nos quilombos, nas periferias e nas universidades, são elas que carregam os pilares de um país que insiste em não lhes reconhecer centralidade.
No campo econômico, a marcha recoloca com contundência um debate muitas vezes silenciado: o modelo de desenvolvimento brasileiro aprofunda desigualdades raciais e de gênero. Em um país onde a concentração fundiária segue intocada, onde a informalidade atinge majoritariamente mulheres negras e onde a precarização do trabalho se intensifica com as novas tecnologias, marchar por reparação e bem viver é também questionar a própria lógica econômica que naturaliza a fome, a pobreza e o endividamento das mulheres. O bem viver, aqui, não é slogan: é projeto político que contrapõe a exploração dos territórios, o racismo ambiental, o extrativismo e a destruição das formas comunitárias de vida.
Há ainda a dimensão simbólica e civilizatória. Marchar é reivindicar a memória de Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin, Tereza de Benguela, Luiza Bairros. É afirmar que a saga do povo negro não cabe nos livros escolares mutilados, mas vive nas comunidades, nos terreiros, nos quilombos, nas ruas ocupadas por mulheres negras que seguem construindo o Brasil real. É romper com a narrativa colonial que insiste em negar a humanidade, a inteligência política e a capacidade de liderança das mulheres negras.
Por fim, a marcha é um grito de alerta e um instrumento de exigibilidade de direitos. Em um momento de crescimento da violência policial, de feminicídios, de ataques às religiões de matriz africana e de ameaças ao direito ao próprio corpo, mulheres negras se levantam para denunciar as múltiplas formas de genocídio em curso e para apresentar caminhos concretos de reconstrução: políticas de segurança pública não racistas, respeito aos direitos reprodutivos, garantia de terras quilombolas e indígenas, acesso à educação, saúde, cultura, crédito e emprego digno.
A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reafirma algo fundamental: a democracia brasileira só avança quando as mulheres negras avançam. E ela só se constrói plenamente quando suas demandas ocupam o centro, não a periferia, das decisões de Estado. Marchar é exigir reparação, afirmar a vida, disputar o presente e anunciar o futuro. É dizer, com a força de séculos de resistência, que o bem viver não é utopia: é horizonte possível, desde que o país finalmente reconheça que as mulheres negras não são coadjuvantes, são protagonistas da história e guardiãs de um Brasil que ainda está por nascer.
*Reginete Bispo é deputada federal suplente (PT/RS), militante do Movimento Negro e defensora dos Direitos Humanos, da democracia e da justiça social.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
