Entrevista

Glauber Braga: ‘Espero que um dia todo orçamento público seja definido pelo povo’

Deputado afastado planeja realizar plenárias públicas no estado do Rio para definir candidatura em 2026

Deputado Glauber Braga
Para deputado Glauber Braga (Psol-RJ), suspensão do mandato continua sendo injusta | Crédito: Reprodução

O deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) atribui a reversão do seu processo de cassação na Câmara à mobilização popular. Ele que esteve em caravana pelo país, reafirma que a vocação da esquerda é a praça pública. “Nós não podemos submeter o conjunto da nossa ação política só ao espaço institucional”, diz.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o parlamentar defendeu que os mandatos de esquerda devem se diferenciar pela transparência e participação popular na execução do orçamento público, em oposição ao que ficou conhecido como “orçamento secreto”.

“Eu espero que um dia todo o orçamento público seja definido pelo povo. Enquanto isso não acontece, nós temos que ter os nossos mandatos de esquerda fazendo essa discussão, essa disputa pública de outro modelo que é possível”, enfatiza.

A Operação Transparência, da Polícia Federal (PF), apontou uma ex-assessora de Arthur Lira (PP-AL) como figura-chave no desvio de emendas. Braga é um dos deputados mais enfáticos na acusação de que o esquema configura um “sequestro” do orçamento público.

O deputado federal, que teve o mandato suspenso por seis meses, comentou que tem discutido um programa de governo para o Rio, mas a definição sobre 2026 será uma construção coletiva. “Acho que a gente tem que ajudar a construir a queda dessas estruturas apodrecidas da política do estado do Rio de Janeiro”, disse sobre a crise institucional na política fluminense.

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Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Deputado, o senhor teve um 2025 muito difícil na política, e na vida privada. Agora tendo superado essa sombra da cassação, o que tem planejado daqui para frente, para 2026?

Glauber Braga – Mobilizar muitas lutas que a gente tem pela frente. Foi uma vitória incontestável, mas continua sendo uma injustiça, o fato de terem suspenso o mandato por um período de 6 meses. Mas o mundo está em ebulição. O Brasil tem ainda uma extrema direita que não aceita estar fora da presidência da república, fora do espaço de poder. Então a nossa grande tarefa é poder enquadrar essa turma, mobilizar todas as nossas forças políticas para não deixar que a extrema direita se fortaleça.

Para isso é fundamental também a gente continuar na luta para acabar com o orçamento secreto, que essa turma se alimenta disso também, eleitoralmente e politicamente. Eu vou estar percorrendo os estados, o estado do Rio de Janeiro, vou estar organizando o conjunto das nossas lutas, contribuindo como militante nesse período em que eu vou estar suspenso seis meses do mandato na Câmara.

Que reflexão você faz dessa sequência de fatos? Desde o processo de cassação, mas também de toda mobilização popular em defesa do seu mandato, até o fatídico episódio de violência na Câmara na semana passada, a agressão da polícia legislativa contra parlamentares, expulsão de jornalistas do plenário.

Eu acho que o fundamental foi uma opção pela disputa quente que não ficou refém do quadrado institucional. Quando o povo se organiza, se junta, parte para cima, o que parece impossível acontece. Artur Lira nunca imaginou que pudesse perder essa batalha, inclusive ele dizia para todo mundo que ia ter mais de 400 votos pela minha cassação. Então acho que esse é o símbolo principal dessa vitória.

Uma vitória que priorizou desde o primeiro momento a luta com o povo fora do quadrado institucional e uma luta que fosse realizada a quente.

Caravana “Glauber Fica” percorreu todos os estados brasileiros, e encerrou com grande ato no Rio em junho
Caravana “Glauber Fica” percorreu todos os estados brasileiros, e encerrou com grande ato no Rio em junho
| Crédito: Reprodução

Não é que não tenham acontecido ações diplomáticas, mas só houve um espaço para ações diplomáticas a partir de toda mobilização realizada pelo movimento social, pela sociedade civil organizada, pelos militantes espalhados pelo Brasil inteiro.

Recentemente vimos a operação da PF desvelar o orçamento secreto no gabinete do ex-presidente da Câmara. O senhor foi um dos primeiros a denunciar esse esquema. A quem interessa a falta de transparência das emendas parlamentares? 

O pai do orçamento secreto é Artur Lira. Essa operação tocada pela Polícia Federal vem de um acumulado. Envolveu o meu depoimento, mas não só isso. É importante que se diga, teve quebra de sigilo telefônico, telemático, daquela que era operadora do orçamento secreto, mas obedecendo às ordens de Artur Lira. A minha expectativa é que ele seja devidamente responsabilizado e que a gente acabe com o orçamento secreto de maneira definitiva.

Não tem nenhuma condição de 1/4 do orçamento público brasileiro ser sequestrado pelas emendas, e boa parte disso ser aplicado sem nenhuma transparência nos municípios, nas regiões. Eu acho que isso fica como tarefa ainda a ser cumprida.

A gente viu a liberação de emendas como barganha na aprovação do PL da Dosimetria. Como fica essa questão, a esquerda é contra as emendas?

Eu espero que um dia a emenda parlamentar nem exista e que o conjunto do orçamento seja definido pelo povo através do poder popular. Mas enquanto isso não acontece, nós temos que estabelecer referenciais e diferenças.

No nosso mandato, por exemplo, 100% das emendas individuais são emendas participativas, definidas em plenárias públicas, onde as pessoas dão as ideias, onde as pessoas votam, onde querem ver o recurso aplicado e formam comitês de acompanhamento para saber se o recurso está sendo aplicado da maneira devida.

O mínimo que se cobra é a inexistência de orçamento secreto.

Respondendo objetivamente sua pergunta: Sim. Eu espero que um dia todo o orçamento público seja definido pelo povo. Enquanto isso não acontece, nós temos que ter os nossos mandatos de esquerda fazendo essa discussão, essa disputa pública de outro modelo que é possível.

Qual o retrato desse congresso inimigo do povo que as pessoas foram às ruas protestar? O PL da Dosimetria foi aprovado às pressas, na madrugada, como que o senhor avalia que o Congresso chegou a esse nível de obscuridade na atuação política?

O que aconteceu ali foi um pacote golpista. Eles sempre vão testando os limites daquilo que conseguem alcançar. Quando eu falo em pacote, falo da anistia que eles chamam de dosimetria, da minha cassação, da preservação dos direitos políticos de Eduardo Bolsonaro que eles tentaram fazer. Tudo é um pacote. Eles vão testando os limites porque existe uma associação, uma ligação entre as forças políticas da direita brasileira, sejam elas denominadas centrão, sejam elas denominadas bolsonaristas ou extrema direita.

Agora, quando o povo se mobiliza, eles voltam atrás. Isso aconteceu na PEC da Blindagem. E se aconteceu na PEC da Blindagem, acontece nas mais variadas medidas anti-povo que sejam colocadas em prática. Então, acho que esse é o simbolismo, essa é a sinalização também.

Nós não podemos submeter o conjunto da nossa ação política só ao espaço do Palácio ou o espaço institucional. A vocação da esquerda é a rua, a praça pública e a gente não pode perdê-la. 

O senhor apostou muito na mobilização das ruas durante seu processo de cassação. O que o senhor ouviu nesse período na caravana itinerante? Como foi esse processo? 

Uma experiência incrível. Numa votação que se definiu por de 226 para 20, em três ou quatro votos, ficou demonstrado que essa mobilização teve um papel fundamental em denunciar o que estava acontecendo ali dentro. Reverter uma votação onde Artur Lira cantava que teria mais de 400 votos e ganhar do “todo-poderoso”, só foi possível por conta disso.

O que eu vi é que existe uma militância espalhada pelo Brasil inteiro, com sede de tocar mobilização permanente que às vezes se sentem um pouco abandonados pelas figuras públicas nacionais, ou seja, pelos representantes de mandato, pelos deputados, às vezes em regiões onde eles estão tocando luta, mas tem muitas dificuldades, porque a direita tem todo um poder estrutural contra eles. 

O Brasil, ao mesmo tempo que é muito grande, ele tem uma conexão entre as diversas regiões, que dá para gente estar presente em todos os territórios, levantando uma luta política que seja de fato nacional, pela esquerda e pela base.

Eu saio com essa convicção. Quem é que diria que era possível em um mês e 18 dias percorrer os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, todos esses encontros com plenárias lotadas. Muita gente me disse no início que isso não dava certo, que era impossível, que tinha que concentrar a atuação nesse período dentro dos gabinetes dos deputados.

Isso demonstrou para mim que há uma ânsia. Uma sede de militantes espalhados por todo o Brasil e daqueles que não estão organizados e que querem se organizar. Se a gente empurrar o caminho por aí, um caminho por uma mobilização a quente, o resultado pode ser o que parece impossível.

2025 acabou com grandes manifestações contra a impunidade de políticos condenados como Ramagem, e no caso do Eduardo Bolsonaro que é réu, os dois ainda não perderam os cargos. Ao mesmo tempo a gente viu Hugo Motta retirando a escolta parlamentar da Talíria Petrone, depois ele voltou atrás pela repercussão. O que explica essa atuação do presidente Hugo Motta, na sua opinião?

Olha, o que aconteceu durante todo esse período culminou com uma tentativa de ataque frontal, fatal para parlamentares de esquerda que a gente reagiu e denunciou, e blindagem a parlamentares de direita, o que não foi bem-sucedido.

O que desequilibrou esse jogo ao nosso favor foi exatamente uma denúncia e uma mobilização pública, mesmo parecendo repetitivo, mas eu tenho que falar, que extravasasse o quadrado institucional.

Esse papel de blindar a direita e a extrema direita, e ao mesmo tempo avançar, limitar, constranger e botar medo em parlamentares de esquerda, não deu certo por conta da mobilização política do povo dos movimentos. 

Deputado, sobre a crise institucional do Rio de Janeiro, a prisão do presidente da Alerj, agora de um desembargador, também por suspeita de vazamento de informações na prisão do TH Joias. Como o senhor avalia esse cenário da política fluminense? 

A política do Rio de Janeiro está completamente apodrecida. Evidentemente, a gente tem que ter a responsabilização dessa turma que está participando dessas barbaridades. Agora, uma mudança estrutural completa dessa política de morte de Cláudio Castro e companhia, ela vem com um amplo processo de mobilização popular, também que vem das bases.

Relembrando [Leonel de Moura] Brizola, relembrando o que foi o trabalho dos CIEPs realizados no Rio de Janeiro, relembrando um período em que o estado do Rio de Janeiro era conhecido como um estado rebelde.

O povo do Rio de Janeiro continua sendo rebelde, mas a gente tem que sair dessa situação de considerar que uma modificação por aqui é impossível e partir para uma ofensiva que enquadre essa turma da velha política, da política tradicional e consiga fazer com que um novo projeto venha a nascer no Estado. Eu acredito que está nascendo. 

Nos seus planos para 2026, o senhor já decidiu sobre a sua candidatura?

A gente começou a fazer uma rodada de consultas. Tive que fazer uma readequação de calendário agora depois de tudo que aconteceu. Mas a gente fez já várias plenárias, espalhadas pelo estado, abertas. Nessas plenárias a gente discute um programa de governo para o Rio, que entre outras coisas defende reestatização da Cedae. A gente discute a conjuntura nacional, e a gente discutiu a tática eleitoral. O que fazer? Pré-candidato deputado federal, pré-candidato ao governo. 

Com tudo que aconteceu na Câmara na última semana, acho que tende a se intensificar uma pressão positiva para ser candidato a deputado. Mas as consultas ainda estão em aberto. A gente vai continuar ouvindo as pessoas e construindo uma posição que de fato seja coletiva. 

A nova privatização da Cedae no governo Castro foi um grande debate esse ano, como isso se insere no contexto das eleições?

Cláudio Castro, há 4 anos, vendeu a distribuição de água e fez a chacina do Jacarezinho. Achou que isso era uma fórmula eleitoral que dava resultado, para o seu projeto nefasto de poder. Ele tenta repetir a mesma fórmula agora com a chacina da Penha e do Alemão, e tentando vender a produção de água.

Só que cada vez mais o desgaste dele se acumula e eu tenho a convicção de que o que ele considera que foi fator decisivo para se reeleger na campanha de 4 anos atrás vai ser o contrário, vai ser fator decisivo para ele ser derrotado na candidatura ao Senado e não conseguir eleger um sucessor de extrema direita.

Eu acredito na força da insurgência, da rebeldia, do nascimento de um novo projeto que pode parecer impossível por estruturas tão consolidadas, mas o que está podre, quando cai, cai de uma vez só. Acho que a gente tem que ajudar a construir a queda dessas estruturas apodrecidas da política do estado do Rio de Janeiro.

Editado por: Vivian Virissimo

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