Uma onda de indignação tomou conta das principais capitais brasileiras nesta segunda-feira (5), após o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no último sábado (3). Atos de solidariedade e repúdio ao governo Trump foram convocados em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte, São Luís e Aracaju.
Em São Paulo, movimentos populares realizaram um ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos, na zona sul da cidade, contra o ataque militar dos EUA em território venezuelano, que teria deixado um saldo trágico de mais de 40 mortos, e contra o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, por forças sob o comando de Donald Trump. Com a captura do mandatário, Delcy Rodríguez assumiu o cargo de presidenta interina da Venezuela.
O protesto em São Paulo, convocado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi marcado pela queima da bandeira dos Estados Unidos e por gritos de ordem que pediam o fim das intervenções estrangeiras na região.

Os manifestantes entoaram em uníssono frases como “se cuida, se cuida, se cuida imperialista, a América Latina vai ser toda socialista” e “fora Israel das terras palestinas, fora ianques da América Latina”.
MST irá para a Venezuela
Durante a mobilização, Gilmar Mauro, da coordenação geral do MST, enfatizou a gravidade do momento e afirmou que o MST irá enviar cerca de 100 militantes à Venezuela em sinal de apoio ao povo venezuelano. “Nós estamos aqui em defesa da soberania do povo venezuelano e, obviamente, condenando o brutal sequestro militar de um presidente eleito constitucionalmente da Venezuela. Vamos mandar 100 militantes do MST à Venezuela.”
O representante do movimento alegou que o MST exige a soltura de Maduro e que o direito internacional, que “está sendo rasgado, seja respeitado”.
Mauro disse que o presidente dos Estados Unidos mandou um recado contra Cuba, contra a Venezuela e, de tabela, contra o povo latino-americano. “Quer transformar o continente latino num quintal dos Estados Unidos e roubar os recursos naturais, como declaradamente ele falou sobre o petróleo da Venezuela, é uma síntese contra a soberania e a dignidade do nosso povo.”

Para ele, a resposta das mobilizações populares e os posicionamentos políticos dos governos devem ser muito contundentes, porque, caso contrário, certamente entraremos num período de enormes guerras, não só no continente, mas em todo o mundo. “A nossa relação com a Venezuela remonta a mais de 20 anos. Nós estamos lá, na Venezuela, há pouco mais de 20 anos. O país importava 90% dos alimentos que consumia e só exportava petróleo. Hoje, a situação se inverteu. Hoje se produz praticamente 90% do que é consumido na Venezuela e nós estamos lá em intercâmbio com o movimento camponês, numa contribuição e parceria para produzir grãos, pecuária leiteira e sementes. Nós nos orgulhamos dessa relação.”
A união das forças de esquerda foi um dos pontos centrais da manifestação. Luís Caseiro, do coletivo Tecendo a Democracia, reforçou esse posicionamento. “É preciso conter essa onda imperialista que ameaça toda a América Latina, inclusive o Brasil. Então, nosso objetivo hoje aqui é mostrar a nossa oposição a essa situação. Se tem uma coisa que os políticos em geral têm receio ou respeito, alguns, é do povo. O povo tem que sempre se organizar, tem sempre que se manifestar e tem que se unir, porque, se não se unir, ele perde a sua força.”

A unidade da esquerda com as forças mais amplas possíveis é sempre necessária, diz ele. “Se a gente der uma rápida olhada aqui, a gente vai ver que nós temos aqui representantes da igreja, nós temos representantes do campo. Aqui nesta manifestação mesmo, temos representantes da periferia de São Paulo, temos representantes dos estudantes, da juventude combativa e temos também professores universitários.”
A questão energética foi apontada pelos manifestantes como o motor central da ofensiva dos Estados Unidos
Pedro Augusto, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), destacou que o interesse estratégico no petróleo motiva a desestabilização da região e alertou que “a expansão do domínio dos Estados Unidos sobre a nossa região também ameaça não só a nossa soberania, mas a nossa existência mesmo como povo”.
Para o dirigente, a proteção desses ativos é fundamental para o futuro, porque são esses recursos que podem garantir a “independência e a economia do nosso país e também para que a gente possa fazer uma transição energética justa”, disse.

Para ele é importante garantir que as riquezas minerais e energéticas atendam às necessidades populares em meio à crise climática.
Em intervenção em frente ao consulado, a vereadora Silvia Ferraro (Psol-SP) reforçou a denúncia contra as ambições de Donald Trump, classificando-o como um “ladrão de petróleo” que visa não apenas a Venezuela, mas também as “terras raras do Brasil e as riquezas naturais da América Latina”.
A parlamentar recordou declarações recentes do republicano para alertar sobre os riscos à soberania regional, afirmando que “o Trump quer transformar todos nós em colônia dos Estados Unidos e nós precisamos rechaçar e repudiar tudo isso”.

Silvia ressaltou ainda a urgência de uma resposta articulada, defendendo que é necessário se posicionar enfaticamente contra o ataque estadunidense. “É preciso que os líderes dos países, os líderes de esquerda, como Lula, como Cláudia, como Petro, estejam à frente da resistência latino-americana contra o imperialismo”.
Uma das participantes, Maria Fernanda Marcelino, da coordenação executiva da Marcha Mundial das Mulheres, conversou com a Rádio Brasil de Fato logo após o ato. Na entrevista, que foi ao ar na segunda edição do jornal Conexão BdF desta segunda, ela destacou a rapidez da resposta coletiva.
“Mesmo sendo um ataque nos primeiros dias do ano, a resposta dos movimentos foi muito pontual, muito assertiva ao repudiar esse ataque, a tentativa de golpe que os Estados Unidos já vêm tentando há muito tempo. Organizações reunidas com bastante unidade, em defesa da Venezuela, em defesa da revolução bolivariana”, relatou.
Marcelino reforçou que, mais que uma defesa de Maduro ou de seu governo, é importante marcar posição em um momento em que todos os países latino-americanos estão ameaçados pela sanha imperialista de Donald Trump.
“Os Estados Unidos não têm nenhuma vergonha de dizer que querem administrar a Venezuela, que têm interesse principal no petróleo, e sabemos que o Brasil tem fonte de água, de minério, tem biodiversidade, tem tecnologia, assim como outros países da América Latina têm riquezas humanas que os Estados Unidos querem se apropriar e fazer da nossa América Latina seu território, seu quintal”, disse.
