Em entrevista ao jornal espanhol El País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à interferência dos Estados Unidos em questões político-econômicas de países latino-americanos, como Cuba e Venezuela, além do próprio Brasil.
Lula fez referência a episódios recentes da geopolítica mundial, incluindo o ataque militar dos Estados Unidos na Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. “Seria necessário um processo eleitoral acordado com a oposição para que o resultado fosse cumprido e a Venezuela pudesse restabelecer a paz. O que não pode é que os EUA acreditem que podem administrar o país. Isso não é normal, não tem lugar na democracia”, afirmou.
O presidente também questionou a coerência da política internacional em relação a Cuba ao comparar a situação da ilha com outras crises humanitárias. “Se aqueles que não simpatizam com o regime cubano estavam preocupados com o povo cubano, por que não se preocupam com o Haiti, que não tem regime comunista?”, disse.
Na avaliação de Lula, Cuba deveria ter condições mais favoráveis para se desenvolver. “Cuba precisa de uma oportunidade”, afirmou, ao defender maior abertura e acesso a recursos.
Nesse contexto, Lula criticou a postura do presidente estadunidense. “Ele está jogando um jogo muito errado. Baseia-se na premissa de que a força econômica, militar e tecnológica americana determina as regras do jogo. Mas não pode ser assim, porque, no fundo, isso acaba criando problemas para os Estados Unidos.”
Situação brasileira
Em relação ao Brasil, Lula também comentou medidas atribuídas a Trump, como a imposição de tarifas. “Me chamou a atenção que os argumentos de Trump para impor tarifas ao Brasil não eram verdadeiros. Essa insistência em força militar, navios, caças… Decidi ter muita paciência e lhe disse, literalmente: ‘Dois países governados por dois cavalheiros de 80 anos devem conversar com grande maturidade’.”
Ele também afirmou que o comportamento do magnata diante de acontecimentos globais impacta indiretamente a economia brasileira. “Quando ele decidiu atacar o Irã, não sei se percebeu que o preço do combustível iria aumentar e que o povo pagaria. Quando você é chefe de Estado, deve respeitar a soberania de outros países.”
Com isso, o presidente defendeu maior responsabilidade das potências globais diante dos acontecimentos recentes no mundo. “Trump não tem o direito de levantar de manhã e ameaçar um país. Ele não foi eleito para isso e sua Constituição não permite isso”, disse. “É essencial que os poderosos tenham mais responsabilidade para manter a paz”, completou.
Mesmo diante dos desafios e da situação da Venezuela, Lula também defendeu o Brasil. “Aqui a democracia funciona, é um exemplo para os Estados Unidos. Minha guerra é a da discussão. E quero lutar contra isso na mesa de negociações. Quero mais livre comércio.”
Agenda
O presidente fará uma viagem oficial à Europa, com compromissos na Espanha, Alemanha e Portugal entre 16 e 21 de abril. O objetivo da viagem é fortalecer as relações bilaterais, ampliar parcerias econômicas e dialogar com lideranças europeias sobre temas globais, no contexto de aproximação do Brasil com a União Europeia e de busca por avanços em acordos comerciais estratégicos, incluindo o acordo entre Mercosul e União Europeia.
A primeira etapa da viagem será na Espanha, onde Lula chega a Barcelona na noite do dia 16. No dia seguinte, ele participa da 1ª Cúpula Brasil–Espanha, realizada no Palácio de Pedralbes. A programação inclui reunião bilateral com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, além de encontros entre delegações e uma reunião ampliada com ministros dos dois países. Os debates devem abordar cooperação política, relações comerciais e defesa do multilateralismo.
Na sequência, Lula segue para a Alemanha, com chegada prevista a Hannover no domingo (19), onde participará da Hannover Messe, uma das maiores feiras industriais do mundo, com foco em inovação tecnológica e indústria. A agenda inclui encontros com empresários e autoridades alemãs, reforçando a pauta de investimentos e parcerias econômicas entre Brasil e Alemanha.
O último destino da viagem será Portugal, na terça-feira (21), quando estão previstas reuniões com autoridades portuguesas, embora detalhes adicionais da programação ainda não tenham sido divulgados oficialmente.
