Entrevista

Especialista em tecnologia vê semelhanças entre China e EUA na disputa digital, mas aponta diferença: ‘China não tem interesse em espionagem política’

Para Jeff Xiong, empresas chinesas e estadunidenses têm semelhanças, mas operam sob lógicas políticas distintas

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Jeff Xiong, secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global, no pódio durante o evento anual da organização em Xangai
Jeff Xiong, secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global, durante o evento anual da organização em Xangai, China – 14 de novembro de 2025 | Crédito: Fórum Acadêmico do Sul Global

China e Estados Unidos são hoje as duas únicas potências com capacidade real de disputar a infraestrutura global da inteligência artificial. A semelhança, porém, para o pesquisador chinês Jeff Xiong, termina quando se observa a relação entre Estado, empresas de tecnologia e soberania digital.

Secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global, pesquisador da East China Normal University e estudioso da soberania digital no Sul Global, Xiong esteve recentemente no Brasil para lançar o livro “Além do Vale do Silício: Inteligência Artificial com Características Chinesas”.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele analisou a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos, o poder das big techs e os desafios enfrentados por países como o Brasil diante da concentração global de infraestrutura digital, dados e capacidade computacional.

“Se observarmos os modelos de linguagem mais avançados do mundo, veremos que apenas Estados Unidos e China possuem capacidade real de competir nessa corrida”, afirma.

Xiong considera que “construir toda a infraestrutura digital nacional do zero já não é uma opção viável para a maioria dos países”, uma vez que os recursos necessários para desenvolver uma cadeia tecnológica autônoma são medidos em trilhões de dólares, e não há neste momento outros países no mundo capazes desse investimento.

A leitura de Xiong sobre a disputa global também parte de uma avaliação geopolítica mais ampla. Segundo ele, “nos meios acadêmicos e políticos chineses, a ideia de que os Estados Unidos estão em declínio deixou de ser uma tendência ou hipótese. É vista como um processo já em curso”. A constatação, porém, não leva o pesquisador a defender que a China simplesmente ocupe o lugar deixado pelos EUA.

“A substituição da dependência dos Estados Unidos por uma dependência da China seria uma tragédia para o Sul Global. Se tudo o que acontecer for trocar um império por outro, nada terá sido resolvido”, sustenta. Para ele, a soberania digital não passa somente pela escolha entre aderir à matriz tecnológica chinesa ou estadunidense, mas pela capacidade dos países de negociar controle sobre dados, infraestrutura e políticas tecnológicas.

Ao comparar as grandes plataformas dos dois países, Xiong afirma que existem semelhanças importantes. “Se pegarmos TikTok e Facebook, por exemplo, há várias semelhanças.” A diferença, segundo ele, está na relação entre Estado e capital. “As empresas chinesas operam dentro de um sistema político em que o Estado mantém capacidade real de regular o capital privado”, argumenta.

Ao defender que empresas chinesas podem oferecer condições diferentes de cooperação tecnológica aos países do Sul Global, o pesquisador afirma que, enquanto as estadunidenses estão “integradas ao aparato de inteligência e segurança dos EUA”, companhias chinesas “não possuem interesse em espionagem política”.

“Há várias razões para isso. Uma delas é a posição histórica da China de não interferir em assuntos internos de outros países”, explica.

A entrevista será publicada em duas partes. Nesta primeira, Jeff Xiong discute a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos, o poder das big techs e os desafios da soberania digital. Na segunda, que será publicada nos próximos dias, o pesquisador aborda a inteligência artificial, seus impactos sobre o trabalho, a comunicação e as experiências desenvolvidas na China para integrar a tecnologia à economia real.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato: Você defende uma cooperação tecnológica entre a China e os países do Sul Global, mas também alerta que substituir a dependência dos Estados Unidos por uma dependência da China não resolveria o problema. Quais condições seriam necessárias para que essa cooperação contribua, de fato, para a soberania digital dos países do Sul Global?

Jeff Xiong: Acho que estamos vivendo um momento interessante. O presidente Xi Jinping se reuniu com Donald Trump recentemente. Há muitas especulações sobre a conversa. Alguns dizem que foi positiva, outros dizem que não houve acordo algum. Trump pareceu satisfeito.

Um aspecto que me chamou atenção foi um comentário atribuído a Xi Jinping. Segundo relatos, ele teria dito diretamente a Trump que os Estados Unidos são uma nação em declínio.

Muitos estadunidenses ficaram chocados com a franqueza dessa afirmação. Eu me surpreendi pela forma direta, mas não pelo conteúdo. Nos meios acadêmicos e políticos chineses, a ideia de que os Estados Unidos estão em declínio deixou de ser uma tendência ou hipótese. É vista como um processo já em curso.

Ao mesmo tempo, a percepção predominante na China é que esse declínio precisa ocorrer de forma gradual. Há o entendimento de que uma queda muito rápida da potência estadunidense poderia gerar instabilidade global.

Os Estados Unidos ainda controlam elementos centrais da ordem internacional: forças armadas, sistema financeiro, moeda e parte importante do comércio global. Se esse declínio ocorrer de forma abrupta, um império em decadência pode se tornar imprevisível. Basta observar episódios recentes envolvendo Venezuela, Irã e outras disputas internacionais.

Mas isso é apenas contexto.

Não acredito que a China esteja preparada para assumir muitos dos papéis que os Estados Unidos exercem hoje. E nem acho que esse deveria ser o objetivo.

A transformação da ordem mundial é um processo. Xi Jinping costuma falar sobre uma comunidade de destino compartilhado para a humanidade. É uma visão estratégica, mas, na prática, ainda não está claro como muitas dessas iniciativas seriam implementadas país por país.

Os países ocidentais construíram seus mecanismos de influência ao longo de cinco séculos. Eles sabem exatamente como atuar em cada país, em cada ministério, em cada instituição.

Recentemente, participei de um pequeno projeto em que identifiquei oito mecanismos diferentes utilizados pelos Estados Unidos para influenciar a política digital brasileira.

Que mecanismos são esses?

Existem várias formas. Lobby empresarial é uma delas.

Hoje há dezenas de lobistas ligados às grandes empresas de tecnologia atuando permanentemente em Brasília. Também existem investimentos, mecanismos econômicos, pressão política formal e informal e diversas outras estratégias.

São estruturas consolidadas de influência. Quando observamos a China, a situação é muito diferente. A embaixada chinesa no Brasil, por exemplo, é muito menos ativa politicamente do que a embaixada dos EUA.

Mas, ao mesmo tempo, a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil.

Sim. Existe uma enorme disposição política entre Lula e Xi Jinping para aprofundar as relações entre os dois países.

Também há interesses econômicos relevantes. Empresas chinesas constroem fábricas, investem e costumam manter boas relações com parceiros locais.

Mas existe uma grande lacuna entre esses projetos econômicos e as políticas públicas concretas. Por exemplo, não sei quantas pessoas na China realmente compreendem a estrutura da governança digital brasileira.

Na China, temos um sistema relativamente centralizado. A Administração do Ciberespaço da China (CAC) coordena a governança da internet e trabalha em conjunto com o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China (MIIT).

No Brasil, a estrutura é muito diferente. Há o Congresso, o Judiciário, órgãos reguladores, o CGI.br. É um sistema mais complexo e descentralizado.

Por isso, voltando à sua pergunta original, eu diria que a China ainda não sabe exatamente qual papel deseja desempenhar nesse processo. Oficialmente, a posição chinesa é clara: cada país do Sul Global deve construir sua própria estratégia digital soberana.

Mas o que isso significa concretamente?

No relatório que escrevi com Sergio Amadeu, chegamos a uma conclusão importante: construir toda a infraestrutura digital nacional do zero já não é uma opção viável para a maioria dos países.

Quando você fala em infraestrutura, está falando de chips, servidores, armazenamento de dados?

Exatamente. Pouquíssimos países no mundo têm capacidade para produzir chips avançados, construir cadeias completas de semicondutores, manter grandes infraestruturas de computação e desenvolver modelos avançados de inteligência artificial.

Essa é precisamente a questão. Se observarmos os modelos de linguagem mais avançados do mundo, veremos que apenas Estados Unidos e China possuem capacidade real de competir nessa corrida.

A Índia possui um projeto nacional de inteligência artificial. Narendra Modi fala muito sobre isso. Mas quanto está sendo investido? Algo em torno de 1,2 bilhão de dólares ao longo de cinco anos.

Com todo respeito, isso não é suficiente para competir nesse setor. Estamos falando de uma escala de investimento completamente diferente. Os recursos necessários para construir uma infraestrutura tecnológica autônoma são medidos em trilhões de dólares.

Por isso, acredito que países como Brasil, África do Sul e até mesmo a Índia já perderam a janela histórica para construir sozinhos um conjunto tecnológico completo e independente.

Recentemente conversei com uma pesquisadora ligada ao Parlamento Europeu. Ela trabalhava numa proposta chamada EuroStack, que pretende desenvolver uma infraestrutura tecnológica europeia integrada, dos chips até as aplicações finais.

Achei a proposta excelente. Perguntei de onde viria o financiamento. Ela acreditava que a Alemanha poderia assumir esse papel. Mas, honestamente, não vejo como isso seria suficiente. A escala necessária é gigantesca.

Então surge a verdadeira questão: o que queremos dizer quando falamos em soberania digital?

Isso significa que os países terão necessariamente de escolher entre um dos dois polos?

Exatamente. Esse é o centro do debate. A substituição da dependência dos Estados Unidos por uma dependência da China seria uma tragédia para o Sul Global. Se tudo o que acontecer for trocar um império por outro, nada terá sido resolvido.

Você apenas deixará seus dados sob controle de uma potência diferente. É uma preocupação legítima. Por isso, quando tentamos responder a essa questão, precisamos considerar as especificidades da China.

É claro que há todo um debate sobre o fato de a China ser um país socialista. Poderíamos passar horas discutindo isso. Mas, olhando especificamente para o ambiente digital, existem semelhanças e diferenças importantes.

Empresas chinesas são empresas. Se pegarmos TikTok e Facebook, por exemplo, há várias semelhanças. Ao mesmo tempo, existem diferenças importantes.

Uma delas é que as empresas chinesas operam dentro de um sistema político em que o Estado mantém capacidade real de regular o capital privado.

Na China existe luta de classes. Ela continua existindo. Empresas como Alibaba e Baidu são empresas capitalistas. Jack Ma é um capitalista.

O Partido Comunista Chinês e o Estado chinês passaram os últimos anos tentando limitar a expansão desordenada do capital privado. Esse processo produziu resultados concretos.

Observando de fora, parece que a China conseguiu exercer um controle muito maior sobre as grandes empresas de tecnologia do que os Estados Unidos.

Sim. Nos Estados Unidos, o capital exerce enorme influência sobre o Estado. Basta observar a proximidade entre as grandes empresas de tecnologia e o governo.

Mas, voltando à questão da regulação digital, a experiência chinesa funciona relativamente bem dentro da China. Há exemplos de combate a monopólios, de regulação da inteligência artificial generativa, de exigência de identificação de conteúdos produzidos por IA e de proteção de crianças contra o uso excessivo da internet.

Essas políticas têm sido implementadas com relativo sucesso. O problema surge quando as empresas chinesas passam a atuar fora da China. E aí a posição oficial chinesa costuma ser muito simples: cabe a cada país regular as empresas que operam em seu território.

Que lições a experiência chinesa de regulação das plataformas digitais pode oferecer a países como o Brasil?

Em termos abstratos, a maioria das pessoas concordaria com muitos dos princípios que orientam a regulação digital na China. O problema aparece quando chegamos à implementação concreta. É fácil concordar que plataformas devem ser reguladas, que notícias falsas não devem ser incentivadas ou que conteúdos gerados por inteligência artificial precisam ser identificados. A dificuldade surge quando é necessário definir quais empresas serão reguladas, quais serão punidas e como essas regras serão efetivamente aplicadas.

Na China, a Administração do Ciberespaço e os demais órgãos reguladores atuam sob um princípio relativamente simples: proteger os interesses da população. Como existe uma liderança política centralizada, a interpretação predominante é que o Estado deve agir em defesa do interesse público. Isso permite que determinadas decisões sejam tomadas com mais rapidez. Se uma plataforma viola uma norma, ela pode ser multada, sofrer restrições operacionais ou até ser impedida temporariamente de atuar em determinados mercados. Essas medidas geram perdas financeiras significativas e funcionam como instrumentos de controle.

Em muitos outros países, entretanto, a situação é diferente. Como um país relativamente pequeno pode regular uma empresa cujo proprietário é uma das pessoas mais ricas do planeta? Como um governo consegue impor sanções a corporações que possuem mais recursos financeiros do que muitos Estados nacionais? Essa é uma questão para a qual eu sinceramente não tenho uma resposta definitiva.

Há alguns anos, por exemplo, o governo australiano tentou impor determinadas regras ao Facebook. A reação da empresa foi ameaçar interromper suas operações no país. Como diversos órgãos públicos utilizavam a plataforma para se comunicar com a população, a medida causaria dificuldades ao próprio governo australiano. No fim, houve um recuo e um acordo foi costurado. Isso mostra que essas empresas funcionam, em certa medida, como instituições supranacionais. Elas possuem capacidade real de pressionar governos.

Talvez a única saída seja construir alternativas. Enquanto um país estiver completamente dependente de uma única plataforma, sua capacidade de negociação será sempre limitada.

E como construir essas alternativas?

Essa discussão existe há muito tempo na comunidade do software livre. O argumento sempre foi simples: governos não deveriam obrigar cidadãos a utilizar produtos de uma empresa específica. Por isso houve um esforço para desenvolver padrões abertos de documentos, permitindo que diferentes programas fossem compatíveis entre si.

Nas redes sociais, porém, o desafio é mais complexo. Elas produzem o chamado efeito de rede. Você utiliza determinada plataforma porque seus amigos, familiares e colegas também estão nela. Não adianta migrar sozinho para outro aplicativo se ninguém mais estiver lá.

Mesmo assim, acredito que é possível começar pela infraestrutura. Podemos discutir quem fornece os servidores, os centros de dados, os chips, as redes 5G, os modelos de inteligência artificial e os serviços de computação em nuvem. Quanto mais alternativas existirem, maior será a capacidade de negociação dos países.

Nesse ponto, vejo uma diferença importante entre empresas chinesas e empresas estadunidenses. Vou usar a Huawei Cloud como exemplo. Em muitos aspectos, ela é semelhante à Amazon Web Services (AWS). Mas existe uma diferença fundamental: a Huawei não tem interesse direto nos dados armazenados em sua nuvem.

Ela não possui interesse em espionagem política. Há várias razões para isso. Uma delas é a posição histórica da China de não interferir em assuntos internos de outros países. 

Outra é que o próprio sistema burocrático chinês é extremamente compartimentado. Muitas vezes é difícil até coordenar ministérios e empresas para executar projetos conjuntos de cooperação internacional. Por isso, sinceramente, não consigo imaginar uma grande operação coordenada para espionar países como o Brasil.

Mais importante do que isso é o fato de que empresas chinesas podem negociar determinados arranjos institucionais. Se houver um acordo político entre Brasil e China, estabelecendo que os dados produzidos pelos brasileiros devem permanecer sob jurisdição brasileira, isso pode ser discutido. 

Pode-se definir que esses dados estejam sujeitos exclusivamente às leis brasileiras, que autoridades brasileiras tenham acesso a eles nos casos previstos pela legislação e que o valor econômico gerado por essas informações também beneficie o país.

Esse tipo de negociação é possível. Não vejo o mesmo espaço de negociação com empresas como a AWS. Em primeiro lugar, porque elas estão submetidas à legislação dos EUA. Em segundo, porque determinadas leis estadunidenses obrigam essas empresas a fornecer informações às agências de segurança do país.

É justamente isso que indignou Dilma Rousseff em 2013, quando vieram à tona as revelações sobre espionagem eletrônica. Desde então, pouca coisa mudou. Grandes empresas estadunidenses de tecnologia continuam integradas ao aparato de inteligência e segurança dos Estados Unidos.

Hoje isso se tornou ainda mais explícito. Empresas de inteligência artificial trabalham diretamente com órgãos de defesa e segurança nacional. Em muitos casos, não estamos mais falando apenas de colaboração. Elas fazem parte desse complexo institucional.

Recentemente, fiquei impressionado ao ver uma empresa de IA afirmar publicamente que havia identificado perguntas feitas por autoridades chinesas em sua plataforma. Aquilo me causou espanto porque contraria princípios básicos de proteção de dados.

Na China, uma empresa que administra informações de milhões de usuários não pode simplesmente permitir que seus funcionários leiam conversas individuais. Isso seria ilegal. Os dados podem ser processados de forma agregada, anonimizada e estatística. Mas acessar individualmente as interações dos usuários é algo extremamente restrito.

Por isso me surpreende a naturalidade com que certas empresas estadunidenses tratam esse tipo de prática. Isso revela uma relação muito particular entre poder econômico, tecnologia e vigilância.

Então você acredita que existe espaço para construir formas diferentes de soberania digital em parceria com empresas chinesas?

Sim. Acho que existe espaço para isso. Mas esse espaço não surgirá espontaneamente. Ele precisa ser construído politicamente.

Vejo muitas narrativas que tentam apresentar as empresas chinesas como equivalentes ou até piores do que as empresas dos Estados Unidos. Eu não concordo com essa avaliação. Existem problemas, evidentemente, mas também existem diferenças importantes.

O caminho passa por acordos políticos claros. Países como o Brasil precisam dizer explicitamente o que entendem por soberania digital e quais garantias desejam obter. A partir daí, governos e empresas podem construir mecanismos técnicos, jurídicos e institucionais capazes de proteger os dados, a infraestrutura e os interesses nacionais.

Se essa discussão não ocorrer, então a tendência é reproduzir simplesmente uma nova forma de dependência.

Editado por: Luís Indriunas

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