O terminal mais movimentado do Distrito Federal completa no mês de junho um ano sob gestão privada. A Rodoviária do Plano Piloto, por onde circulam diariamente cerca de 700 mil pessoas, vive um cenário de disputa entre a promessa de modernização da infraestrutura e denúncias de controle e restrição do espaço público.
A Concessionária Catedral assumiu a operação do complexo com a promessa de revitalizar a estrutura, mantendo a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) como órgão fiscalizador. No entanto, o primeiro ano da concessão revela avaliações divergentes entre o governo e movimentos sociais que acompanham a dinâmica do transporte no Distrito Federal.
Segundo pesquisa do Instituto Opinião com usuários do terminal, entre 26 de janeiro e 5 de fevereiro deste ano, a aprovação dos passageiros saltou de 45,6% para 86,1% após intervenções como a modernização de 12 escadas rolantes e elevadores. A gestão também destaca a recuperação de pilares e a instalação de um novo centro de monitoramento.
No entanto, Paique Santarém, militante do Movimento Passe Livre (MPL), avalia que o primeiro ano confirmou prognósticos negativos sobre a privatização do terminal e seus arredores.
“Infelizmente, o que nós vemos a partir da privatização foi um processo de espoliação do espaço público por ter travado os estacionamentos ao redor da rodoviária para a iniciativa privada lucrar. Eventos e manifestações culturais que ocorriam regularmente foram banidos”, criticou.
O militante reforça que a lógica comercial se sobrepôs à função social do espaço, prejudicando a livre circulação. “Não é razoável dizer que hoje a rodoviária é mais confortável para os passageiros. Todos os processos de que falávamos, de expulsão e de submeter a mobilidade ao lucro, estão acontecendo”, completou.
Outro ponto de crítica envolve a segurança. Se, por um lado, passageiros relatam se sentir mais tranquilos com o videomonitoramento, por outro, há relatos frequentes de abordagens consideradas abusivas por parte dos seguranças da concessionária.
Denúncias de assédio
O deputado distrital e presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU), Max Maciel (Psol-DF), afirma que a comissão vem acompanhando denúncias de assédio contra trabalhadores e cidadãos. Para o parlamentar, a organização das plataformas, que poderia ter sido feita pelo próprio Estado, resultou em pressão indevida sobre quem circula no local.
“Recebemos vídeos de denúncia de entregadores do iFood sendo questionados e pessoas abordadas indevidamente por estarem com sacolas, ao deduzirem que seriam ambulantes. Ou seja, a rodoviária deixou de ser um espaço de ir e vir livre para as pessoas”, analisou.
O deputado destaca ainda que a vigilância constante mudou o perfil de convivência no terminal. “O que observamos é que conseguiram dar uma organizada, mas o que a comissão acompanha de fato são denúncias de assédio por parte dos seguranças, questionando a presença das pessoas por determinados padrões”, ressaltou.
Paique Santarém também aponta o esvaziamento de vendedores. “A rodoviária ficou visivelmente despovoada de feirantes, o que a gente acha que é um problema muito sério. Muitas lojas estão fechando ou se modificando em um cenário que é bem preocupante”, pontuou.
A militarização do ambiente também é citada como um fator de desconforto. Segundo o militante, o aumento da presença de segurança armada não resultou necessariamente em proteção real, mas em um “nível de repressão que aumentou os níveis de violência” contra as populações mais vulneráveis que frequentam o centro de Brasília.
Impactos financeiros e futuro
No horizonte da concessão, a preocupação financeira recai sobre a “taxa de acostagem”. Max Maciel alerta que a cobrança pelo uso das plataformas pelas empresas de ônibus pode, eventualmente, ser repassada ao consumidor final, onerando ainda mais o sistema de transporte público.
“A comissão vem acompanhando se de fato a taxa de acostagem vai ser paga, pois isso vai gerar um ônus maior ainda para a população do Distrito Federal no transporte público”, afirmou o deputado distrital, que planeja realizar uma visita técnica para avaliar o cumprimento das metas contratuais.
Paique Santarém corrobora e prevê um agravamento da situação nos próximos anos. “A tendência é piorar se nada for feito para reverter isso, com aumentos de passagem, enquanto os ônibus não melhoram e a situação do transporte continua precarizada”, concluiu o militante do MPL.
A Semob-DF reitera que a fiscalização é rigorosa, e que o terminal segue integrando serviços como o novo terminal do BRT e salas de acolhimento para pessoas com autismo. O canal de ouvidoria da concessionária permanece aberto para receber críticas e sugestões da população através do e-mail: [email protected].
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