No dia 27 de setembro de 2026, três meses após a sua partida, o músico, artista plástico, professor e militante cultural Zé Martins completaria 65 anos. Para celebrar uma vida inteira dedicada à arte engajada e à construção coletiva, amigos de longa data sobem no palco do Café Fon Fon, em Porto Alegre, a partir das 20h, para o Tributo a Zé Martins (In memoriam). O espaço escolhido acolheu dezenas de shows do Unamérica, como os lançamentos dos álbuns Pássaro Poeta e Canções para Tempos de Cólera.

Mais do que uma homenagem, o evento tem um propósito prático e transformador: os recursos arrecadados com a bilheteria serão destinados à criação de um fundo para finalizar as obras da casa-escultura de Zé Martins, localizada no ateliê do artista na Lomba Grande, em Novo Hamburgo. O espaço será transformado em um memorial dedicado ao ensino da arte e à educação ambiental. Os ingressos antecipados já estão disponíveis.
A caminhada com o Grupo Unamérica
A história de Zé Martins confunde-se inevitavelmente com a do Grupo Unamérica, fundado há 43 anos, em 1983, por ele, Dão Real e Protásio Prates. Mas a parceria e a cumplicidade de Zé e Dão vinham de antes, forjadas na efervescência cultural de São Leopoldo e Sapucaia do Sul, em iniciativas como o Centro Livre de Cultura (CLIC) e o evento Existe Arte na Velha Morada, no Zanzibar. Como destaca Dão Real, ambos compartilhavam a firme convicção de que a arte e a cultura são fundamentais para edificar uma sociedade mais justa.
O Unamérica nasceu ainda sob o signo do final da ditadura militar em que poucos falavam de América Latina. Na histórica capa do primeiro LP do grupo, lançado em 1989, Protásio Prates descreveu aquela sonoridade de forma poética: “O voo do condor sobre o Corcovado, a zabumba bombeando o Pampa (…) essa paixão sulamericana é Unamérica”. O disco expressava a essência de uma “Latino-América sulinamente norteña” e trazia a “estranha sensação de saudade do amanhã”.

Para Dão Real, o maior êxito da parceria de décadas foi a persistência e a sobrevivência digna por meio da música, superando inúmeras dificuldades com base em uma amizade profunda e no respeito mútuo.
“No Unamérica, eu e o Zé formávamos uma parceria muito sólida. Quando comemoramos os 35 anos do grupo, nos perguntaram qual era o nosso maior sucesso e eu respondi que era termos continuado juntos todo esse tempo.”

Dão questiona quantos grupos musicais começaram e terminaram neste período? “Passamos por muitas dificuldades juntos, sobrevivemos de música por um longo período das nossas vidas, com toda a dificuldade que isso representa. Mas o que realmente nos unia nesta caminhada foi uma profunda amizade e um grande respeito um pelo outro. A ausência do Zé nos deixa um enorme vazio e uma permanente saudade.”
‘Fazer música latina no início dos anos 1980 era pedreira’
Como bem define o músico Demétrio Xavier, também participante do tributo, a lembrança de Zé Martins evoca a máxima: “Si en medio de la lucha muere un hermano, dale un beso en la frente y seguí peleando”.
Segundo ele, a perspectiva americanista do Zé (e do Dão e do Duo, por supuesto) são, de alguma forma, prato do dia, hoje, em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. “Aliás, a expressão gastronômica serve muito bem, porque uma grande parte desse americanismo é mercadológico (mercado+lógico), entre uma profusão de parrillas, empanadas, panchos, chimichurris e nomes espanholados, com ou sem acerto gramatical, com ou sem noção do contexto hispano-americano ou mesmo platino.”

Mas, lembra Demétrio, no início dos anos 1980 era pedreira. “Não se pense que a explosão de Mercedes Sosa, dos programas da rádio Bandeirantes de São Paulo, dos outros artistas e grupos que faziam música com projeto de integração continental; até mesmo do perfil que lá pelo Sudeste já ganhara o nome irônico de “poncho e conga”… Não se pense, retomo e insisto, que algo disso deixava o serviço mais fácil. Não se confunda moda com movimento.”
Para Demétrio, aquele movimento era pura contra-hegemonia, sustentado com audácia, vigor e talento. “Graças a ele, estamos vivendo um momento de real desenvolvimento de uma cultura que toma o mundo ibero-americano como um território comum (para muito além do boom gastronômico e costumbrista de que falei aqui, ao início).”
Arte, mística e luta: a caminhada no MST

A atuação de Zé Martins também deixou marcas profundas na história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde colaborou na Frente de Música João do Vale e no Coletivo de Cultura.
Segundo Luciana Frozi, do Coletivo de Cultura, Zé não era apenas um músico de palco: ele se entregava por inteiro aos bastidores, participando ativamente dos ensaios, da preparação das místicas e de todo o processo de organização coletiva.
“Para quem conviveu com Zé, sua presença também era marcada pela generosidade, pela alegria dos encontros e pela disposição em compartilhar conhecimentos e experiências. Mais do que um companheiro de música e de cultura, Zé era alguém que fortalecia os espaços por onde passava, aproximava pessoas e construía amizades ao longo da caminhada.”

Uma de suas maiores contribuições ao movimento foi a canção “Festa da Colheita”, gravada pelo Unamérica no CD Canções para Tempos de Cólera, que se tornou o hino oficial das Festas da Colheita do Arroz Agroecológico do MST, unindo arte, trabalho e celebração da produção de alimentos saudáveis.
Zé também marcou presença constante nos Festivais Por Terra, Arte e Pão e nas noites culturais dos Encontros Estaduais do MST. Além disso, o Unamérica celebrou seus 40 anos com um show no palco do Anfiteatro Violeta Parra, no Instituto Educacional Josué de Castro, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão.
“A história do MST é feita por muitas mãos, vozes e trajetórias. A de Zé Martins é uma delas: uma trajetória marcada pela música, pela cultura e pela entrega por inteiro à construção coletiva. Sua presença permanece não apenas nas músicas que ajudou a criar e nas místicas que ajudou a construir, mas também nas lembranças e nos afetos daqueles que tiveram a oportunidade de caminhar ao seu lado”, destaca Luciana.
Segundo ela, Zé deixa uma trajetória marcada pela música, pela cultura, pela luta e pelo carinho daqueles que conviveram com ele. “Sua voz continua presente na memória do povo Sem Terra, nos encontros, nas canções e nas relações que ajudou a construir ao longo da caminhada.”
A solidariedade internacional com Cuba

A solidariedade artística ultrapassou as fronteiras nacionais. O trovador argentino Gabo Sequeira, do Canto de Todos, recorda que, no ano de 2010, voltou a Porto Alegre para um novo Fórum Social Mundial convocado por seu irmão e mentor Vicente Feliú e pela Associação José Martí.
Entre os projetos que Vicente propôs estava o de musicalizar poemas de Antonio Guerrero Rodriguez (Um dos Cinco Heróis Cubanos que na época estavam injustamente presos nos Estados Unidos). No projeto estavam convocados: Pedro Munhoz, Raul Ellwanger, Dão Real e Zé Martins, que resultou no CD Pássaro Poeta, lançado em 2017.
“Zé foi um dos primeiros a musicalizar e gravar um poema de Antonio Guerrero, o que lhe deu a oportunidade de convidar Vicente Feliú e a mim para gravar nossas vozes na canção ‘Amor Verdadeiro’, fazendo uma interpretação musical tão terna quanto bonita da esperança em tempos de cólera”, recorda Gabo.
Segundo ele, graças à humildade e grande predisposição de Zé, pode participar do disco Pássaro Poeta. “Também conheci sua bela casa dentro de uma floresta, seus projetos e canções por um mundo melhor e solidário com as causas justas e sempre com a canção e o abraço.”
Atêlie Baixo da Lomba e a parceria nas artes plásticas

Além de sua trajetória musical, Zé Martins possuía um domínio técnico notável nas artes visuais. O artista plástico Mai Bavoso, parceiro de trabalho de Zé por 40 anos e na idealização do Ateliê Baixo da Lomba, relata que foi através dele que aprendeu as bases e as estruturas da escultura. Mai destaca que o rigor técnico e a precisão de Zé Martins o desafiaram a aprimorar o próprio trabalho.
Em contrapartida, foi através dessa convivência que Mai se aprofundou no universo da música gaúcha de raiz, conhecendo as obras de Mário Barbará e do Grupo Saracura. Mai Bavoso também foi o responsável pelas artes das capas de todos os álbuns do Unamérica.
Esse legado tridimensional de Zé Martins materializa-se na própria casa-escultura que ele construiu na Lomba Grande. Agora, por meio da união de seus amigos, este local de inspiração poderá ser concluído e devolvido à comunidade como um espaço ativo de ensino de arte e ecologia.
Serviço
- Evento: Tributo a Zé Martins (In memoriam)
- Data: 27 de setembro de 2026 (domingo)
- Horário: A partir das 20h
- Local: Café Fon Fon (Rua Vieira de Castro, 22 – Farroupilha, Porto Alegre)
- Ingressos: R$ 35 (antecipado) | R$ 50 (na hora)
- Venda de Antecipados: www.cafefonfon.com.br
Artistas e coletivos confirmados:
- Dão Real (Grupo Unamérica)
- Claudio Nilson (Grupo Unamérica)
- Carlos Walter Soares (Grupo Unamérica)
- Mai Bavoso (artista plástico)
- Gabo Sequeira (trovador – Argentina)
- Demétrio Xavier
- Raul Ellwanger
- Tânia Farias
- Vini Braun
- Pedro Rocha
- André Luzardo
- Coral Cantalomba
- Mística Especial com a Brigada de Música João do Vale do MST
