A participação das mulheres deixou de ser um elemento secundário nas estratégias eleitorais da extrema direita. É o que mostram a socióloga Jacqueline Moraes Teixeira e a antropóloga Christina Vital da Cunha no livro Mulheres e Extrema Direita no Brasil (Elefante, 2026). A partir da análise de figuras como Michelle Bolsonaro e de movimentos como o PL Mulheres, as autoras mostram como a direita vem construindo uma linguagem capaz de aproximar da política mulheres que nem sempre se identificam como conservadoras ou de direita — e muito menos como feministas. A estratégia passa pela valorização de uma mulher “comum”, apresentada como capaz de cuidar da família, administrar a casa e, ao mesmo tempo, ocupar espaços de poder.
Na entrevista ao Brasil de Fato, Jacqueline Teixieira afirma que essa disputa envolve também uma ressignificação da própria ideia de emancipação feminina. Em vez de rejeitar temas caros às mulheres, candidaturas conservadoras incorporam pautas como o combate à violência doméstica, a saúde, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência e o acesso a políticas públicas, ao mesmo tempo em que defendem uma concepção tradicional de família. A religião tem papel central nesse processo, assim como a capacidade de criar redes de mobilização que ultrapassam as estruturas formais dos partidos.
Para a professora da Universidade de São Paulo (USP), o fenômeno revela uma disputa que vai além das eleições: a extrema direita também tenta definir o que significa ser mulher, ser emancipada e participar da vida pública. Nesse cenário, o feminismo negro aparece como uma força capaz de contrapor esse discurso ao recolocar no centro questões como maternidade, racismo, cuidado, violência de Estado e diferentes formas de organização familiar.
Brasil de Fato – Como vocês avaliam o papel desempenhado pelas mulheres na eleição de candidatos da extrema direita?
Jacqueline Moraes Teixeira – Acho que hoje não é possível construir uma candidatura política consistente sem construir uma aliança e uma imagem equipada pelo apoio de mulheres. E isso serve tanto para a direita como para a esquerda. Mas quando a gente olha para a direita – e sua série de grupos e até mesmo para aqueles com uma disposição maior para misoginia – essa característica chama muito a atenção. E não apenas no Brasil.
Quando olhamos para a direita em outras regiões do mundo, o marcador de gênero é fundamental. Por exemplo, no segundo mandato do [presidente dos Estados Unidos Donald] Trump, a gente vê muito mais mulheres na centralidade ocupando posições de visibilidade do que no primeiro mandato de dez anos atrás.
No livro, vocês chamam a atenção para a comparação de Michelle Bolsonaro com a personagem bíblica Rainha Ester, que governou quando o marido se afastou dos acontecimentos públicos, sem nunca reivindicar o trono. Qual é a força dessa personagem bíblica para os religiosos e qual a importância dessa associação?
Essa personagem bíblica, a rainha Ester, foi retratada em algumas novelas da Record, produzidas no canal, mas com apoio da Igreja Universal. São novelas que fizeram muito sucesso nos últimos dez anos. Em 2022, a Michelle, quando ela aparece nas campanhas, ainda na candidatura do [marido, Jair] Bolsonaro, essa relação com a Ester fica forte, exatamente porque surge essa concepção de um marido, quase que um azarão, que não fazia as coisas direito, que não sabia falar direito, que tinha uma série de problemas.
E tinha então essa mulher, que era uma mulher muito carismática, que tinha uma imensa sabedoria, que tinha como virtudes a gestão, a paciência e a amabilidade. Características que fizeram com que o governo fosse um governo muito vitorioso. Quando a figura da Michelle se torna uma figura muito mais midiática isso novamente aparece.
Essa metáfora é realmente muito forte para as mulheres evangélicas. A ideia de uma mulher casada com um homem de virtudes duvidosas, mas capaz de administrar um reino, administrar essa relação e inclusive melhorar a figura desse marido desastrado é bastante forte.
Vocês também descrevem esse movimento de mulheres do PL liderado pela ex-primeira dama como bastante acolhedor e com uma grande capacidade de convencimento a ponto de levar o crescimento do PL Mulheres a 930% em 2024 e eleger 995 candidatas nas eleições de 2024 entre prefeitas, vices e vereadoras. O que mais cativa nesse discurso?
Fundamentalmente, essa proposta de que ocupar a política não seria um ato extraordinário, seria um ato possível para toda mulher comum.
A frase do slogan do PL Mulheres nos últimos anos, e que passa a ser muito pronunciada por Michelle Bolsonaro, de que ‘mulheres comuns fazem coisas extraordinárias’, é fundamental.
Isso também é representado nas roupas, que passam por uma transformação. Então, aquela roupa que é, talvez, mais esperado para o perfil das mulheres de direita, uma roupa mais fechada, uma saia, ela vai sendo substituída pela camiseta, pela camisa, pela calça, por um sapato que pode ser usado em várias ocasiões.
É uma mulher que vai se tornando cada vez mais versátil, porque ela tem uma dupla jornada de trabalho, ela faz muitas coisas ao mesmo tempo. Então, eu acho que isso traz uma, assim, eu acho que uma potência de uma sensação de identificação e de reconhecimento que, não tenho dúvidas, facilitou muito o crescimento do PL Mulheres no Brasil.
Nesse contexto também facilitou uma linguagem de vinculação que não depende necessariamente da construção de espaços institucionais do partido. A configuração das células nas pequenas cidades – nas casas das mulheres – permitiu com que, de alguma maneira, houvesse uma possibilidade de que as mulheres se inscrevessem no partido, sem necessariamente haver naquele lugar um diretório específico ou um espaço mais consolidado.
Como elas se reúnem?
De maneira online, mas também encontros de mulheres, por exemplo, um café, um chá. E aí essas mulheres assistiam os cursos de formação política online, preenchiam o formulário e elas vão se filiando ao partido, sem necessariamente depender de um diretório. As configurações institucionais, elas vêm depois. Então, tem uma capacidade muito grande de capilaridade.
Isso realmente é uma estratégia muito ligada à gestão da Michelle Bolsonaro e outras mulheres religiosas no contexto do PL Mulheres.
Falamos bastante do discurso, como elas cativam. Mas como esse posicionamento de extrema direita se reflete nas políticas públicas? Quais políticas públicas elas vão advogar?
Quando a gente está falando do público que vai se engajando com a proposta dessas mulheres que se autodenominam conservadoras, a gente está falando majoritariamente de um público feminino, porque os homens em geral não votam nessas mulheres de direita, nem os homens de direita.
Fundamentalmente, é uma proposta que passa a circular em público feminino, que não se pensa nem de direita nem de esquerda, que não se pensa necessariamente como um público feminista, mas que avalia que as mulheres são muito mais sobrecarregadas, que elas passam por muito mais iniquidades e violências. Um público que hoje reconhece que o principal foco está na violência doméstica, que tem uma expectativa política de que seria possível o Estado resolver essas questões.
Então, com isso, a gente está falando de mulheres que se candidatam e que acabam tendo que direcionar minimamente as suas propostas para essa expectativa, senão elas não conseguem ser eleitas. Nessas pautas estão a questão da saúde da mulher, a questão das institucionalidades de proteção à criança, dos direitos dos idosos, direitos de pessoas com deficiência, direitos das mulheres.
Então, basicamente, o que a gente pode entender é que esse público acaba, obviamente, defendendo uma ideia de família, não apoiando, consequentemente, políticas públicas voltadas para a legalização do aborto e políticas públicas voltadas também para várias questões relacionadas às populações LGBTQIA+.
O que acontece é que, muitas vezes, essas mulheres ficam entre a necessidade de transitar mais para um centro político para manter o seu público eleitoral, mas que encontra sempre muita resistência porque os seus partidos, as suas coligações e o seu apoio político dependem sempre de uma configuração política mais à direita.
O voto no Lula sempre esteve associado a pessoas de baixa renda e daquelas que estão preocupadas com a desigualdade social. São pessoas, muitas vezes, ligadas à importância da política pública. Elas têm capacidade de capturar esses votos?
Sim, tem. Primeiro porque não estamos falando de um público que não votou no Lula a partir de uma concepção ideológica, por ser de esquerda. Votou no Lula porque confiou numa melhora e numa extensão maior de construção dessas políticas.
Esse mesmo público é um público que hoje se vê muito sem perspectiva de voto e decepcionado com o Lula e com o PT, exatamente por conta das questões que a gente sabe que aparecem o tempo todo nas pesquisas. Corrupção, a sensação de que a vida não necessariamente melhorou nesses últimos anos, o que torna, principalmente as mulheres, um público de fato muito sensível a essa proposta dessas mulheres conservadoras da direita.
E além da defesa das mulheres e das crianças, essas mulheres estão ligadas a outras pautas de combate à desigualdade social?
Sim, a gente vai ver uma centralidade também na disputa das políticas da população idosa no Brasil. Tudo que, de alguma maneira, está vinculado à ideia de cuidado e às políticas de cuidado. A população idosa, políticas que pensam em investimento, em trabalho, em questões relacionadas a empreendedorismo e microcrédito.
As políticas de saúde, não apenas de saúde da mulher, mas de dimensões que, de alguma maneira, ajudam a pensar a saúde familiar. Então, acaba que essas propostas políticas também ficam menos pautadas pelo que a gente costuma chamar de um negacionismo em relação a políticas públicas de saúde, a vacina e tudo mais.
Exatamente porque são propostas voltadas para minimamente engajar esse público que possui uma expectativa fidedigna que depende do SUS [Sistema Único de Saúde] e possui uma expectativa fidedigna de que um novo governo precisa melhorar o SUS.
Agora, sobre a questão da religião e interferência no Estado. O Estado é laico por previsão constitucional. Em um país bastante religioso como o Brasil, qual a importância dessa definição? E, ao mesmo tempo, por que o fator religioso, como o voto evangélico, tem tanta influência na política?
Quando pensamos a linguagem constitucional brasileira, estamos falando de um país que é laico, mas que desde a sua primeira constituição, no século 19, sempre conseguiu regular a religião para que a religião não desaparecesse da política e não desaparecesse da parceria do Estado. Então, a Igreja Católica sempre ocupou esse lugar. Quando pensamos nas políticas públicas de saúde e educação, estamos falando do modo como instituições cristãs sempre ocuparam o lugar da caridade, o lugar da parceria com os direitos humanos.
Então, quando olhamos o modo como essa direita vai se produzindo a partir de uma aliança católica e de uma aliança com os grupos evangélicos, também estamos pensando necessariamente na manutenção desse modelo, que é um modelo que está presente na nossa história desde a República e a Democracia. Então, o que falamos é que, no fundo, temos um país em que sua constitucionalidade privilegia que alguns grupos religiosos atuem na política e atuem no Estado de forma muito legítima como associações civis. Grande parte das nossas associações civis que tem parceria com o Estado são confessionais.
Então, isso faz com que a gente também acabe produzindo uma linguagem de política pública que não consegue prescindir do engajamento religioso e da incidência de pessoas religiosas nesse contexto.
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Agora, vocês também citam no livro o movimento português A Grande Reconquista. Qual é o tamanho desse movimento em Portugal? De que maneira ele inspira a movimentação política feminina no Brasil?
Esse movimento está crescendo cada vez mais em Portugal e está alinhado a outros movimentos europeus. Certamente, as pautas relacionadas ao reconhecimento de alguns direitos reprodutivos e direitos sexuais foram fundamentais para o crescimento desse movimento.
Então, o que a gente vê, desde há um tempo, vem chamando desse movimento que vai configurando de forma conservadora uma ideia de ideologia de gênero, é base da construção desse movimento em Portugal.
Agora, esse movimento não tem a mesma profusão e a mesma potência de capilaridade que a gente vê, por exemplo, quando a gente analisa movimentos ocorridos no PL Mulheres e no Republicanos, por exemplo.
A candidatura dessas mulheres no Brasil, no contexto brasileiro, depende mais de engajar esse público feminino que não se pensa como de direita nem como de esquerda.
A ideia de uma nova cruzada, de eliminar quem não tem a mesma religião, está presente no discurso dessas mulheres de extrema direita?
No Brasil, muito pouco. Vamos só configurar isso melhor. Não é que não esteja presente, é que, na verdade, isso aparece muito mais como uma missão.
Na ideia de cristianizar o Estado e, consequentemente, construir um Estado que seria menos corruptível e um Estado mais justo, por exemplo, para as famílias. Agora, essa dimensão mais específica de uma teocracia, isso não aparece no mesmo formato como aparece em Portugal ou como aparece nos Estados Unidos ou como aparece em outros países. Aqui isso ganha, realmente, uma outra configuração.
Seria mais branda?
A defesa da ideia de democracia aqui é muito importante.
Mesmo com o ex-presidente e marido de Michelle, Jair Bolsonaro, ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado?
Você não avança com esse público feminino se você não defender a democracia. Agora, de que formato de democracia estamos falando e como construir uma linguagem democrática de direito que, de fato, seja capaz de inibir alguns totalitarismos, aí é outra coisa.
Porque aí depende das alianças, depende das coligações, depende de uma série de dimensões que também constrangem e atravessam essas candidaturas femininas conservadoras. Mas a imagem delas precisa permanecer como uma imagem mais moderada.
Porque se elas mergulham no totalitarismo, elas não conseguem ganhar a eleição.
Vocês também falam no livro de que elas se opõem às feministas e se colocam como mulheres mais aglutinadoras. É isso mesmo? Qual é o limite dessa capacidade de falar por todos?
Bom, na verdade, o feminismo está falando para um grupo específico de mulheres. Mulheres que se veem como marxistas, mulheres que se veem como mais à esquerda, e a gente, quando traz a ideia de feminino, a gente está falando para qualquer mulher.
A gente fala também, de alguma maneira, de um feminismo que nos últimos anos conseguiu se popularizar mais, graças, inclusive, à circulação dos textos de feminismo negro.
As mulheres de direita trazem a ideia de que nem toda mulher consegue ser feminista, mas toda mulher consegue ser feminina. Então, tem sim uma estratégia significativa de tensionar uma leitura sobre o feminismo dizendo que o feminismo não é para qualquer pessoa, mas o feminino sim.
Eu acho que talvez seja um dos nossos objetivos, com o livro e as pesquisas, é dizer que a gente está realmente vivendo hoje uma disputa pelo conceito de emancipação política das mulheres. E a direita está fazendo essa disputa a partir do investimento em candidaturas femininas e disputando, consequentemente, essa emancipação a partir da ideia de dizer, bom, existe uma outra forma de pensar essa emancipação.
E isso, obviamente, leva a gente para outro ponto, que eu acho que é uma coisa que nem foi possível desenvolver no livro, mas que eu desenvolvo bastante, principalmente nas minhas pesquisas individuais, que é também a importância da Lei Maria da Penha nesse contexto. A Lei Maria da Penha vai ser fundamental para produzir e para fazer circular o repertório de violência de gênero, de uma violência específica que acontece apenas porque você é mulher.
Recentemente parlamentares do PL promoveram ridicularizações a essa lei e a pessoa da Maria da Penha. Essa lei é importante para as mulheres de direita?
Muito importante. Eu estou fazendo uma leitura que a gente está vivenciando, na verdade, nessa eleição, uma ressignificação do lugar do gênero no engajamento político, porque essas candidaturas de direita, nos outros anos, estavam apostando muito na ideia de ideologia de gênero.
E hoje a gente está ouvindo menos a palavra ideologia de gênero nessas candidaturas, e mais o combate à violência contra a mulher.
A crítica à lei vai ser forte dentro de algumas linhas do PL, mas não é um discurso que o PL vai usar estrategicamente para engajar voto político, e que nem vai associar à incidência do PL Mulheres. É um discurso que passa muito por um outro grupo no contexto desses partidos, que jamais vai se aproximar da imagem da candidatura de pessoas como Michelle Bolsonaro, por exemplo.
E qual o papel do feminismo negro nessa disputa?
O feminismo negro consegue retomar algumas questões que talvez tenham passado mais invisibilizadas quando a gente está pensando no feminismo que foi muito representado pelas autoras e pelas ativistas brancas.
Uma delas é o próprio lugar e a importância que a maternidade e o sonho da constituição de uma família reconhecida vai ter para algumas mulheres. O feminismo negro vai dizer, por exemplo, como mulheres negras, muitas vezes passaram por políticas de histerectomia exatamente porque os seus filhos não seriam bem-vindos à construção da nação.
Ao passo que mulheres brancas seriam incentivadas à maternidade. Acho que quando o feminismo negro traz a questão racial, a questão latino-americana, a opressão feminina a partir de outros marcadores, interseccionando com outras questões, eu acho que a gente está falando de um repertório que começa a circular mais para além de algumas bolhas. Os livros do feminismo negro passaram a aparecer nas novelas, passaram a aparecer como repertório de outras coisas.
Há também a questão de que essas mulheres podem não ter sido alcançadas por políticas de planejamento familiar e por políticas de direitos reprodutivos. Ou não terem encontrado uma rede de apoio para o cuidado das suas famílias, porque estamos falando também de um público que é o público que hoje é mais reconhecido como chefe de família no Brasil.
Então, são mulheres também que vão exercer uma maternidade solo. Esses filhos que vão ser sempre racializados, em sua maioria, vão ser filhos também que vão ser foco de outras formas de violência. Extermínio, violência, violência de Estado.
A gente está falando do modo como o feminismo vai trazer também o feminismo negro, ele acaba trazendo também a família, a ideia da família patriarcal, como uma família que também pode ser ponto de resistência.
Ao disputar o direito da maternagem e disputar mesmo essa linguagem do feminismo negro, a gente está falando, na verdade, de mulheres que lutam pela ressignificação da ideia de família.
Então, elas querem o direito de poder ser reconhecidas como mães, como administradoras, como gestoras e uma série de coisas. Eu acho que isso tem uma outra potencialidade para a ideia de família que pode ser vista para além da família patriarcal burguesa.
E eu não tenho dúvidas que isso também foi fundamental e ajudou de alguma maneira esse feminismo a circular mais para além dos espaços mais comuns a alguns movimentos feministas.
