A terra é base de tudo para a vida. Simboliza a estabilidade, a nutrição e o mundo material, representa o princípio da criação, a conexão com a natureza e a força realizadora. A Amigas da Terra Brasil (ATBR) está neste rumo, sem tréguas para ninguém. Agrega muita gente, 14 trabalhadores fixos e um ideal: cuidar da terra com todas as suas variantes – luta ambiental, luta da classe trabalhadora, luta por justiça racial, luta pela água, luta contra as destruições provocadas pelas transnacionais, enfim luta por justiça em todas as dimensões.
A CasaNat – Centro de Arquitetura Socioambiental para o núcleo Amigas da Terra fica na rua Olavo Bilac, 192, entre a Cidade Baixa e a Azenha, em Porto Alegre. A edificação, com mais de 80 anos e que já abrigou uma escola, foi cedida à organização pelo Patrimônio da União para uso gratuito em 6 de agosto de 2025 por dez anos.

Letícia Paranhos, presidenta nacional da Amigas da Terra, conta que na época a casa estava reduzida a ruínas, apenas a fachada estava em pé. Diversas etapas de reformas, mutirões e mobilização de associadas(os), apoiadoras(es), profissionais e núcleos de universidades foram necessários até que o imóvel passasse a funcionar como sede permanente da Amigas da Terra Brasil (ATBR). Hoje, reformado, o espaço é centro de referência do ambientalismo em meio urbano. É um lugar simples, mas cheio de ideias e de pessoas determinadas.
Organização defende sistemas de água

A organização social surgiu efetivamente em 1983 – antes disso havia a Associação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG), que funcionou desde 1964, no início da ditadura militar (1964-1985). Duas figuras extraordinárias do ambientalismo brasileiro surgiram aí, Magda Renner e Giselda Castro.
Magda Elisabeth Nygaard Renner (1926-2016) foi uma lenda nas lutas ecológicas em igualdade de dedicação com Giselda Castro (1923-2012). Militantes ferrenhas lutaram mundo afora pela causa ecológica. Elas inicialmente buscavam a inserção das mulheres das periferias na sociedade e fortalecer seu senso de cidadania e dignidade e, a partir de 1972, iniciaram sua luta no ambientalismo através do ecologista José Lutzenberger, fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
A casa também abriga o Centro de Documentação Magda Renner, que está em construção para ser disponibilizado à população com mais de 3 mil livros e publicações, videoteca com mais de 200 volumes, fotografias e arquivos de documentos sobre as principais lutas e a atuação da Amigas da Terra Brasil no movimento ecológico nacional desde a década de 1970. “Será a preservação da nossa memória ambiental”, garante Letícia.

Depois de algumas mudanças, o símbolo oficial da ATBR é um círculo verde, com um punho cerrado, significando luta por justiça ambiental. Três eixos movem o grupo no Rio Grande do Sul: contra a mineração (160 projetos existentes no estado), contra a monocultura de árvores (eucaliptos), contra a soja transgênica (atinge 4 milhões de hectares ou 24% do território gaúcho).
“Fazemos vigilância popular para denunciar o uso de venenos e agrotóxicos e os seus impactos nos sistemas de água. Lutamos contra o poder corporativo e transnacional, que tenta impor seus métodos contra o direito do ser humano à água e à terra”, reafirma Letícia, também coordenadora de programas e projetos da Amigas da Terra Internacional, que agrega 75 países.
O secretariado da organização mundial é em Amsterdam (Holanda) e a presidência é dividida entre Malásia e Inglaterra. Há atividades em todos os cantos do mundo em associação com outras entidades que lutam pelo mesmo ideal de proteger a terra. Atualmente, a ATBR vive de eventos, feiras, recursos obtidos no exterior e através de editais de projetos.
Governos de direita da Suécia e Holanda cortam verbas

Alemanha, Suécia e Holanda eram os maiores cooperadores. Restou a Alemanha. Os outros dois países cortaram os recursos destinados ao grupo por razões políticas – a direita ganhou o governo e cortou as verbas, assim como fazem todos os políticos deste espectro. O dinheiro que entra é controlado rigorosamente por auditorias.
Mesmo com os cortes, a CasaNat sobrevive com projetos e enfrentamentos como estes:
– Uso eficiente da energia;
– Conforto ambiental;
– Tratamento local de efluentes;
– Paisagismo produtivo;
– Reaproveitamento de resíduos;
– Coleta e utilização da água da chuva;
– Geração de energia solar térmica e fotovoltaica;
– Reaproveitamento de materiais de construção;
– Seleção de materiais de baixo impacto ambiental;
– Ênfase no uso natural de iluminação e ventilação.
Mulheres em luta contra crimes na natureza

A ATBR está atuando fortemente contra a proposta da fábrica de Celulose chilena CMPC (Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones) em Barra do Ribeiro, investimento de R$ 27 bilhões, em fase de discussão e de licenciamento. “É um desafio gigantesco. Estamos dizendo NÃO à nova indústria. Caso a ideia se concretize serão 4 milhões de hectares de carbono sujo entrando na atmosfera, expansão de monocultivos de eucaliptos no bioma Pampa, empregos temporários e impactos permanentes, mais de mil pescadores afetados sem uma consulta séria, a terra dos guaranis Mbya será engolida e devorada, tirando a vida natural dos índios”, contabiliza Letícia.
A fábrica de Guaíba foi inaugurada em 1972 pela norueguesa Borregaard, um dos resultados da política desenvolvimentista da ditadura empresarial-militar brasileira que convidava investidores do mundo a “poluírem aqui”. Depois de muitas trocas acionárias, a atual proprietária é a CMPC, da família Matte, uma das mais ricas do Chile e apoiadora fiel da ditadura de Pinochet (1973-1990). A indústria, em vários países, forma um dos maiores grupos florestais e de maiores celuloses da América Latina.

“Enquanto polui solo, águas, ar e prejudica a saúde, a CMPC investe para passar uma imagem sustentável. Patrocinou o Campeonato Gaúcho de Futebol e criou um time fictício chamado Defensores da Natureza. Propaganda Verde. Caso instalada, a fábrica em Barra do Ribeiro, assim como a existente no município de Guaíba, irá despejar efluentes industriais no tão poluído Delta do Guaíba, e impactar ainda mais o Pampa com seus monocultivos”, diz boletim da ATBR.
Encontro entre o urbano e o rural
Outro grande desafio da ATBR é fortalecer a Comunidade que Sustenta a Agricultura Agroecológica (CSAA) Territórios de Vida. Num intercâmbio de sabores e saberes, a CSAA reafirma o valor do encantamento, da produção agroecológica cooperada e da união entre campo e cidade, levando o nutrir para a sua morada. A iniciativa é um sistema de impulso social do trabalho conjunto entre agricultoras, artesãs, alquimistas e pessoas consumidoras conscientes (co-produtoras), informa Letícia.

O lançamento da iniciativa aconteceu em 2024 e vai crescendo gradativamente. “Neste projeto, vivenciamos a produção de alimentos, artesanias e alquimias da terra. Sentimos, conhecemos e vamos construindo outras formas de se relacionar com a Terra”, garante.
No mundo atual, o avanço do agronegócio com o uso de agrotóxicos e das pulverizações aéreas não têm fronteiras. Os venenos usados nas lavouras são verdadeiras armas letais que ameaçam territórios de vida que produzem sem veneno, impactando profundamente a saúde de produtores rurais e de ecossistemas. Na linha de frente contra essa forma de produção, reafirma a presidenta da Amigas da Terra, está a agricultura familiar cooperada e agroecológica, que se torna viva na prática e cuidado com a terra de diversos territórios do Rio Grande do Sul.
Territórios de Vida x Projetos de Morte

Não há espaço para vacilar na questão da terra, diz Letícia, uma espécie de peregrina da causa pelo RS, Brasil e mundo, com suas frequentes viagens. Ela conta que recentemente foi promovido pela ATBR o “Seminário Regional Territórios de Vida x Projetos de Morte Monocultivos e Mineração”, no Cpers-Sindicato, em Porto Alegre. O encontro reuniu comunidades, povos indígenas, quilombolas, assentados, juventude urbana e rural, organizações e movimentos sociais de todo o estado para refletir, fortalecer e articular estratégias em defesa dos biomas, povos e territórios de vida.
Com base em repertório histórico e trazendo uma série de dados, o seminário se debruçou na disputa entre dois projetos de futuro: os territórios de vida, que florescem na diversidade cultural, na agroecologia, na luta por soberania alimentar e justiça social, e os projetos de morte, que avançam com monocultivos, mineração e agrotóxicos, impondo destruição, racismo ambiental e agravando a crise climática.
O momento foi composto por atividades culturais, participação em ato, oficina de batucadas e três painéis de debate. Foram dois dias de diálogos potentes sobre histórias de luta, denúncias dos impactos socioambientais e experiências de resistência que mostram que outro caminho é possível – um caminho construído pelos povos, na defesa da terra, da água, da saúde, da cultura e da vida, conforme relata documento do evento.
Emergiram questões relacionadas à luta por terra e território, marcadas pela urgência de reforma agrária popular, da agroecologia, da reforma urbana, da demarcação de territórios indígenas e da titulação quilombola. Outro tema foi a necessidade de pôr fim à violência colonial. Para isso, é fundamental a solidariedade internacionalista, assim como a construção de alternativas reais, que alterem a correlação de forças do capitalismo e mudem as lógicas de produção e consumo.
A soberania dos povos é questão vital

São soluções que tenham como eixo a soberania dos povos, especialmente alimentar e energética, uma transição justa e feminista, e que se ergam a partir das raízes com justiça climática, trazendo reparação histórica, garantia de direitos e a salvaguarda das formas de vida ancestrais.
O evento denunciou projetos de morte da especulação imobiliária, indústria bélica, da celulose, mineração e agronegócio, assim como seus impactos e os retrocessos legais que os fortalecem. Mergulhando na resistência em solo gaúcho, foram realizadas apresentações sobre as lutas contra agrotóxicos, monocultivos e o latifúndio. Foi evidenciado o protagonismo das mulheres, assim como as mobilizações políticas e sociais realizadas em defesa do meio ambiente.
“A gente fala que por trás de uma grande fortuna há sempre um crime. E por trás desses crimes estão as transnacionais”, afirmou Letícia. “Vivemos tempos da arquitetura da impunidade das grandes corporações globais. Quando falamos de projeto de morte, nós falamos que eles podem existir graças a essa arquitetura”, expressou.
A violação de direitos humanos, dos povos e da natureza é uma prática constante e estrutural das transnacionais e das empresas. Para obterem lucros, conforme a ATBR, elas externalizam os custos para a realidade cotidiana das pessoas, via exploração de seus trabalhos e territórios. Este processo se intensifica na relação geopolítica global, fazendo com que países da periferia do sistema capitalista, o Sul Global, lidem com a superexploração, o etnocídio, o ecocídio e o genocídio em larga escala.
E nessa relação desigual, os países do centro do sistema capitalista acumulam riquezas. Do lado de cá, se contam os corpos. Sejam de entes queridos, de amigos, de companheiros de luta, sejam os corpos dos rios e das florestas, conclui Letícia.
