Starlink x soberania

Sem citar Musk, cúpula com Irã, Rússia e China condena uso não autorizado de internet via satélite

Posição da OCX veio após presidente da Ucrânia tentar convencer Musk a operar satélites Starlink em território russo

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Foto ilustrativa mostra o logotipo da STARLINK em um smartphone - 16 de outubro de 2025.
Foto ilustrativa mostra o logotipo da STARLINK em um smartphone – 16 de outubro de 2025. | Crédito: Guo Dexin / CFoto / via AFP

Pela primeira vez, a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) denunciou que “a prestação de serviços de Internet via satélite não autorizados no território dos Estados-Membros, sem a obtenção da licença e/ou autorização (…) constitui uma violação do direito internacional das telecomunicações”.

A afirmação está na Declaração de Bishkek sobre o Vigésimo Quinto Aniversário da OCX, publicada após o encerramento da cúpula da organização nesta terça-feira (01), na capital do Quirguistão.

Embora não tenha sido mencionada, a denúncia se aplica à Starlink, subsidiária de telecomunicações da estadunidense SpaceX de Elon Musk.

A crítica veio pouco depois que Zelensky concedeu a Elon Musk a “Ordem da Liberdade da Ucrânia” por seus “méritos pessoais excepcionais”, no último dia 26. O gesto foi entendido na mídia hegemônica como forma de convencer o bilionário a autorizar o uso do sistema de satélites Starlink em território russo para fins militares.

O Financial Times chegou a noticiar que Musk estaria disposto a permitir que a Ucrânia usasse drones guiados pelo Starlink contra alvos em território russo, desde que a decisão tivesse aval da Casa Branca. Mas segundo o Kyiv Independent, fontes próximas a Musk teriam afirmado que ele continua se opondo à ideia.

O texto da declaração reafirma o direito soberano de cada Estado de administrar a internet em âmbito nacional, defende a igualdade de direitos de todos os países na regulação da rede e condena a militarização das tecnologias de informação e comunicação. Nos dois anos que antecederam a cúpula em Bishkek, China, Rússia e Irã, os três integrantes da OCX, já haviam manifestado publicamente suas posições sobre o Starlink.

China no Conselho de Segurança

Em 29 de dezembro de 2025, durante reunião informal do Conselho de Segurança da ONU, o representante chinês Fu Cong, afirmou que sistemas como o da Starlink estão sendo amplamente empregados em atividades de reconhecimento militar, comunicações em campo de batalha e outras operações, tendo inclusive intervindo diretamente em conflitos armados em outros países, conforme consta na ata oficial da intervenção divulgada por Pequim. O representante mencionou ainda o uso do Starlink por grupos violentos e terroristas, forças separatistas e redes de fraude transnacionais na África, no Sul e no Sudeste da Ásia.

presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, o presidente da China, Xi Jinping, o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, o presidente do Tadjiquistão, Emomali Rakhmon, e o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, posam para uma foto antes da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em Bishkek, em 1º de setembro de 2026.
Presidentes dos países da Organização de Cooperação de Xangai posam para uma foto antes da cúpula em Bishkek, capital do Quirguistão – 1º de setembro de 2026. | Crédito: Vyacheslav PROKOFYEV / POOL SPUTNIK/ AFP

A China também denunciou duas manobras perigosas de satélites do Starlink próximas à Estação Espacial Chinesa, forçando desvios de emergência. Fu também apontou que um dos satélites da empresa se desintegrou em órbita, gerando mais de cem fragmentos. O representante chinês cobrou dos Estados Unidos o cumprimento das obrigações previstas no Tratado do Espaço Exterior e o reforço da fiscalização sobre as atividades comerciais da SpaceX.

Rússia: protestos e conflito

Em fevereiro deste ano, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou à agência turca Anadolu em coletiva de imprensa, que a Starlink “não presta serviços” na Rússia e que a empresa “se recusa a cumprir esses requisitos” de autorização e legislação nacionais. Zakharova disse que a Rússia “documentou inúmeros casos” de descumprimento e também relatou o “uso ilegal de terminais de assinantes da Starlink durante os recentes protestos antigovernamentais no Irã e na Venezuela em 2024”.

A porta-voz ainda denunciou o “envolvimento desse sistema de internet via satélite de baixa órbita no apoio às operações de combate de grupos armados ucranianos e organizações terroristas na África e no Sudeste Asiático”.

A Rússia convocou, em 29 de dezembro de 2025, uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sob a “fórmula Arria” (reunião informal), segundo Zakharova. Segundo a diplomata russa “os Estados-membros da ONU confirmaram a necessidade de que os operadores de sistemas de internet via satélite em órbita baixa respeitem a soberania e cumpram a legislação nacional dos Estados em cujos territórios prestam seus serviços”.

Irã: apreensões e bloqueio de sinal

Já o Irã, através de seu Ministério da Inteligência e Segurança Nacional, afirmou em março deste ano que apreendeu centenas de terminais Starlink enviados pelo chamado “inimigo estadunidense-sionista” e declarou que a compra e o uso de sistemas ilegais do Starlink são crime, podendo sujeitar os infratores às penalidades mais severas em tempos de guerra, segundo informações da agência estatal Mehr.

A agência Fars informou que o Irã conseguiu interromper o sinal do Starlink em algumas áreas, reduzindo o tráfego em mais de 80%. Com isso, o Irã teria se tornado o primeiro país a desativar o serviço. Durante os ataques não provocados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a agência Reuters publicou uma reportagem afirmando que representantes da empresa reclamaram que o governo Trump utilizava terminais avaliados em 25 mil dólares (cerca de R$ 140 mil) por conexão, mas pagando apenas 5 mil dólares (cerca de R$ 28 mil) e que a Starlink foi usada para guiar drones dos EUA em ataques ao Irã.

Editado por: Lucas Estanislau

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