O deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF) teve um aumento patrimonial expressivo em comparação à última eleição: ele registrou R$ 10 mil em bens na Justiça Eleitoral em 2022, valor que subiu para R$ 6,23 milhões em 2026. Candidato à reeleição, o parlamentar exerce seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados.
Jornalista e radialista, Fred ficou conhecido no Distrito Federal pela atuação em programas televisivos de cobertura policial. Na emissora Record Brasília, ele apresenta o Balanço Geral DF. A trajetória impulsionou o desempenho eleitoral em 2022, quando recebeu 165.358 votos e conquistou uma cadeira como deputado federal.
Além de acumular um patrimônio milionário, a atuação de Linhares na Câmara ficou marcada pela defesa do endurecimento das penas, do voto a favor da PEC da Blindagem e do marco temporal. O Brasil de Fato DF analisou votações e projetos do parlamentar para mostrar como ele se posicionou em algumas das principais discussões do Congresso no último período.
Nas redes sociais, o deputado afirma que o bom uso do dinheiro público é uma das suas marcas e se coloca como defensor das mulheres. Ao longo do mandato, no entanto, Fred Linhares adotou posições que colocam seu discurso em contraste. Apesar de apresentar a proteção às mulheres como uma de suas bandeiras, tornou-se coautor do projeto que prevê pena equivalente à de homicídio simples para abortos realizados após a 22ª semana de gestação, inclusive quando a gravidez é decorrente de estupro.
Patrimônio
Entre os bens declarados neste ano pelo deputado estão uma casa no Lago Norte avaliada em R$ 4,7 milhões, um Porsche 911 Carrera no valor de R$ 1 milhão, 50% de uma embarcação avaliada em R$ 300 mil e uma motocicleta BMW S 1000 RR declarada por R$ 132 mil.
Fred Linhares já havia concorrido a um cargo eletivo em 2010. Naquele ano, quando disputou uma vaga de deputado distrital pelo Partido Social Cristão (PSC), declarou R$ 50.528 em bens. Em quatro anos de mandato na Câmara, o patrimônio aumentou 623 vezes.
“Cadeia tem que ser ruim mesmo”
Na segurança pública, Fred Linhares manteve a linha do endurecimento da legislação penal e fez discursos populistas sobre o tema. O deputado defende a redução da maioridade penal e comemorou nas redes sociais a instalação de uma comissão especial na Câmara para discutir o tema.
A posição acompanha manifestações anteriores do parlamentar. Durante a discussão sobre a restrição às saídas temporárias de presos, em março de 2024, Fred utilizou o tempo de liderança do Republicanos no plenário para defender o endurecimento das regras.
“Cadeia não é uma colônia de férias. Cadeia tem que ser ruim mesmo. Tem que ser ruim mesmo!”, declarou o apresentador do programa Balanço Geral DF.
Em 2023, Fred apresentou o PL 1.689, que propôs mudanças na Lei de Execução Penal para que condenados por crimes hediondos praticados contra crianças e adolescentes cumprissem integralmente a pena em regime fechado e sem direito a saídas temporárias.
Balanço Geral
Fred Linhares construiu sua projeção pública no Distrito Federal à frente de programas como Cidade Alerta e Balanço Geral. O deputado se afastou temporariamente da TV Record em razão das regras previstas para o período eleitoral.
A legislação estabelece restrições à participação de candidatos na programação de emissoras de rádio e televisão a partir do período definido no calendário das eleições. O afastamento, portanto, não representa uma saída definitiva da emissora, mas o cumprimento das regras aplicáveis aos candidatos durante a campanha.
Voto a favor da PEC da Blindagem
Fred Linhares votou favoravelmente à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 3/2021, conhecida como PEC da Blindagem. Em setembro de 2025, votou “sim” ao texto nas duas votações na Câmara dos Deputados. O voto contrasta com o discurso adotado pelo próprio deputado sobre transparência e responsabilização no exercício do mandato.
A PEC não avançou no Senado. Em setembro de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) rejeitou a proposta por unanimidade. Foram 26 votos pela rejeição. O parecer considerou o texto inconstitucional e, no mérito, contrário ao interesse público. No mesmo dia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), determinou o arquivamento da proposta.
O texto estabelecia que integrantes da Câmara e do Senado não poderiam ser processados criminalmente sem autorização prévia da respectiva Casa legislativa. Caberia aos próprios parlamentares decidir, por maioria absoluta e em votação secreta, se autorizariam o andamento da ação penal contra um de seus integrantes.
A proposta também alterava regras relacionadas às prerrogativas parlamentares e estabelecia prazo para a deliberação sobre a autorização.

Projetos para mulheres e coautoria do PL 1904
A proteção às mulheres é uma das bandeiras que Fred Linhares reivindica no seu mandato, com referências a “defensor das mulheres” na sua página oficial.
Em 2024, no entanto, Fred se tornou coautor do PL 1.904/2024. O projeto estabelece pena de 6 a 20 anos de prisão para o aborto realizado após a 22ª semana de gestação, equivalente à prevista para o crime de homicídio simples. A regra alcançaria inclusive gestações decorrentes de estupro.
Atualmente, o Código Penal não pune o aborto quando a gravidez resulta de estupro e não estabelece limite gestacional para essa hipótese. Também não há punição quando o procedimento é necessário para salvar a vida da gestante.
A proposta provocou forte reação de organizações de defesa dos direitos das mulheres, especialmente pelo impacto sobre meninas e mulheres vítimas de violência sexual.
O tema das mulheres aparece em outros projetos apresentados pelo deputado. Entre eles está o PL 1.445/2026, que propõe reforçar medidas para suspender o porte, a posse e o acesso a armas de fogo por agressores em casos de violência doméstica e familiar.
Fred também apresentou propostas para garantir aluguel social a vítimas de violência doméstica, destinar recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública ao enfrentamento da violência contra as mulheres e criminalizar o uso de inteligência artificial para manipular imagens, vídeos ou áudios utilizados para praticar violência contra mulheres.

Marco temporal

Fred Linhares também votou favoravelmente ao marco temporal para a demarcação de terras indígenas.
Em maio de 2023, o parlamentar votou “sim” ao texto aprovado pela Câmara que estabeleceu como referência para o reconhecimento da ocupação tradicional das terras indígenas a data de 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal.
A tese estabelece, como regra, a necessidade de comprovação de que os povos indígenas ocupavam ou disputavam judicialmente determinada área naquele momento.
O marco temporal é contestado por organizações e representantes indígenas sob o argumento de que diferentes povos foram expulsos de seus territórios antes de 1988 e, por isso, poderiam ser impedidos de comprovar a ocupação na data estabelecida.
Outro lado
O Brasil de Fato DF procurou a assessoria do deputado Fred Linhares e pediu explicações sobre a diferença entre o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral nas eleições de 2022 e 2026.
A reportagem também questionou como o parlamentar concilia o discurso de transparência e responsabilização com o voto favorável à PEC da Blindagem e a atuação de proteção às mulheres com a decisão de se tornar coautor do PL 1.904/2024.
Fred também foi questionado sobre a defesa da redução da maioridade penal, sua concepção sobre a função do sistema prisional e os critérios utilizados para definir seus posicionamentos na Câmara.
Até a publicação desta reportagem, o deputado não havia respondido. O espaço segue aberto para manifestação.
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