Famílias atingidas por uma operação de desocupação realizada em 27 de agosto na região de Santa Luzia, na Cidade Estrutural, região Administrativa do Distrito Federal, continuam no local e enfrentaram novas derrubadas nesta quarta-feira (2), segundo o Movimento Vida & Água (MVA). Entre os atingidos estão crianças e adolescentes, e moradores permanecem abrigados sob árvores enquanto tentam reconstruir as estruturas derrubadas.
A ação do dia 27 derrubou cerca de 250 estruturas, segundo a Secretaria de Estado de Proteção da Ordem Urbanística do Distrito Federal (DF Legal), e integra uma sequência de operações realizadas pelo Governo do Distrito Federal (GDF) na região. O órgão afirma que apenas duas estruturas eram utilizadas como moradia e que cerca de dez pessoas viviam na área.
Carmélia Teixeira, coordenadora do MVA no Eixo 4, que reúne Estrutural e Vicente Pires, afirma que as famílias atingidas no dia 27 são as mesmas que permanecem na região e foram novamente afetadas pelas derrubadas desta quarta.
“Eles estão ficando no relento. Derrubaram de manhã, agora de novo, já botaram novamente, já estão construindo”, relatou.
O Brasil de Fato DF questionou a DF Legal sobre a realização de novas derrubadas nesta quarta-feira (2) e aguarda retorno.
A área alvo das ações fica próxima ao Parque Nacional de Brasília e está inserida em região de proteção ambiental. Segundo a DF Legal, as operações têm como objetivo impedir novas ocupações e o parcelamento irregular do solo.
A versão do governo é de que havia poucas pessoas efetivamente morando no espaço atingido no dia 27. De acordo com o órgão, das aproximadamente 250 estruturas desconstituídas, somente duas eram utilizadas como moradia.
A DF Legal afirma ainda que a maior parte das pessoas chegou ao local após perceber a movimentação das equipes e acusa integrantes da ocupação de incendiar objetos e atacar servidores públicos durante a ação. Segundo a pasta, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga o caso. A pasta não respondeu especificamente aos relatos de crianças e moradores atingidos por gás ou spray de pimenta. O órgão informou, no entanto, que cerca de dez pessoas residiam na área e afirmou que o Conselho Tutelar esteve presente durante a operação.
Incêndio também é alvo de versões distintas
A origem do fogo registrado durante a operação é outro ponto de divergência. Questionada sobre a possibilidade de pertences terem sido destruídos pelo incêndio, a DF Legal afirmou que os próprios ocupantes atearam fogo em objetos para tentar impedir a operação e também como forma de protesto após as derrubadas.
O órgão sustenta ainda que a maior parte das estruturas estava vazia e não continha pertences. Segundo a pasta, os poucos moradores encontrados no local tiveram oportunidade de retirar seus objetos antes da desconstituição dos barracos.
Duas famílias aceitaram atendimento
A Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes-DF) confirmou ao Brasil de Fato DF que duas famílias aceitaram atendimento de suas equipes durante a operação.
Segundo a pasta, os profissionais verificaram o acesso e a possibilidade de inclusão das famílias em programas e benefícios sociais, de acordo com o perfil e os critérios de elegibilidade. As duas famílias já estavam referenciadas nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) de Ceilândia e Samambaia e, de acordo com a Sedes, continuam acompanhadas pela rede socioassistencial.
Durante a abordagem, a secretaria também ofereceu acolhimento institucional às duas famílias, mas ambas optaram por não aderir ao serviço. Segundo Carmélia, porém, as famílias atingidas permanecem na região. “No mesmo local, no relento, debaixo das plantas, das árvores”, afirmou.
As informações da Sedes e do movimento mostram que, embora tenha havido atendimento e oferta de acolhimento institucional, moradores permaneceram na área após a operação. A secretaria não detalhou, na resposta encaminhada à reportagem, quantas crianças e adolescentes integravam as famílias atendidas.
Movimento e governo divergem sobre assistência
As versões do MVA e da DF Legal divergem sobre a presença e atuação de outros órgãos durante a operação.
Carmélia afirma que as famílias não receberam assistência após as derrubadas e sustenta que não houve acompanhamento do Conselho Tutelar. “Não veio Conselho Tutelar, não veio nenhum órgão oferecer ajuda para eles. Eles estão no relento”, disse.
A DF Legal apresenta uma versão diferente. Segundo o órgão, Sedes, Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) e Conselho Tutelar estiveram presentes e atenderam pessoas que declararam residir no local.
Para o MVA, a principal reivindicação das famílias é uma solução habitacional. “A reivindicação das famílias é pela moradia”, afirmou Carmélia.
As operações na área não começaram em agosto. Segundo a DF Legal, em julho foram removidas quase 200 estruturas precárias de madeira e lona, desconstituídos mais de 10 quilômetros de cercamento e descaracterizados aproximadamente 500 lotes considerados ilegais.
Nesta quarta-feira (2), o ciclo de derrubadas e reconstruções continuou, segundo o movimento. Carmélia relata que as mesmas famílias atingidas no dia 27 permaneceram na região e voltaram a levantar estruturas depois de novas derrubadas ao longo do dia.
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